terça-feira, 16 de julho de 2013

O capital social na era das redes sociais online


Este trabalho é um dos pilares da minha dissertação da mestrado. Pretendendo analisar as transformações do valor económico e social da informação no quadro da sociedade em rede, aproveitei a cadeira de Redes Sociais Online (ministrada pelo regente do mestrado, Gustavo Cardoso) para fazer uma primeira abordagem ao tema. Basicamente, tinha como intenção tentar perceber o que é que leva as pessoas a interagir (e por vezes expor a sua intimidade ou expor-se a um óbvio aproveitamento comercial) nas redes sociais online. O que esperam retirar disso como beneficio pessoal ou social. Que gratificação imediata é que isso lhes dá. Obviamente não me interessava entrar pela psicologia social (embora isso também fosse interessante). O que me interessava era perceber que benefícios sociais resultam da interacção nessas redes e em que medida é que esses benefícios são diferentes face às redes sociais não mediadas. Obviamente, o conceito de capital social é central nesta análise.
Confesso que não conhecia em profundidade o conceito de capital social, o que obviamente era uma lacuna importante  uma vez que se trata de um conceito central em sociologia. Conhecia o seu sentido superficialmente, mas agora fiquei a conhecer muito melhor todas as suas vertentes (e até as suas várias acepções). E, como é óbvio, há mudanças importantes no tipo de relacionamento social que se estabelece entre os indivíduos que têm impacto sobre a formação de capital social. Impactos qualitativos e quantitativos.
Este é um tema difícil e a impressão que me ficou foi que ainda há muito por estudar. Mas há duas ideias que gostaria de destacar. Primeiro, a participação nas redes sociais online está longe, muito longe de ser uma futilidade. Obviamente, estas são redes diferentes das redes tradicionais. Mas não são menos importantes ou - aquilo que realmente me interessa neste estudo - menos valiosas para os indivíduos. Isso torna-se evidente quando as analisamos usando um prisma diferente daquele a que recorremos para analisar as redes tradicionais. Um "amigo" do Facebook é diferente de um primo ou um irmão. Mas não é necessariamente menos importante do ponto de vista social. E pode ser tão ou mais valioso do ponto de vista social. Uma das razões é porque há aqui dois elementos das redes sociais online que são determinantes em introduzir a diferença: a quantidade incomparavelmente mais abundante de ligações mediadas e o facto de poderem transpor as contingência de espaço e tempo. Portanto, desse ponto de vista, a investigação feita para este trabalho foi frutuosa e serviu os objectivos que tinha inicialmente para ele (em termos de análise do valor social da informação)
Mas há outra ideia que eu também queria destacar e que neste trabalho acabei por apenas aflorar superficialmente: a multiplicação de relações sociais e a transversalidade espacio-temporal das mesmas coloca os indivíduos perante novos tipos de filiações sociais que transcendem as limitações geográficas, nacionais, etárias, familares ou outras. Ou seja, toda aquela sorte de critérios que costumavam sedimentar (e ainda sedimentam) as relações sociais não mediadas. E o que parece - sinceramente - é que é isso mesmo que explica as convulsões sociais que temos vindo a presenciar um pouco por toda a parte (e para as quais se procuram futilmente "razões próximas"). Parece haver aqui um desconforto, um desajustamento, entre a realidade "real" dos indivíduos e a realidade "virtual" das suas relações sociais online. Eu lembro-me de ter achado - com Baudrillard, por exemplo - que havia um desfasamento traumático de base entre aquilo que a sociedade de consumo nos impunha como aspiração social e aquilo que a realidade económica nos permitia. Sempre achei que esse trauma seria o "combustível" de alguma coisa. Pois bem, hoje em dia, o desfasamento traumático entre as limitações da nossa realidade "real" e as potencialidade da nossa realidade "virtual" é ainda maior. Está por provar que seja isso - ou algo parecido com isso - que está na base das convulsões sociais em que vivemos. Mas essa hipótese deve ser estudada (o que, por si só, repare-se, "obriga" a pôr de lado, desde logo, todas as referidas "razões próximas").
No fundo, o que isto significa é que há aqui movimentos tectónicos profundos das formas de sociabilidade dos indivíduos e do tipo de relações sociais que se estabelecem entre eles. Essas mutações profundas têm provavelmente múltiplos efeitos, sendo que um deles pode bem ser a construção de sociedades (ou sociedade) mais justas, mais fraternas e mais solidárias. Isto, obviamente, está para lá do âmbito restrito do trabalho que pretendo fazer neste mestrado, mas, bem vistas as coisas, pode também ser um elemento a ter em conta numa análise do valor social da informação. Não para os indivíduos, mas para a sociedade como um todo. Ou seja, o conceito de capital social é instrumental, mas podemos igualmente analisar as potencialidades comunicativas da sociedade em rede como um elemento de crescimento e amadurecimento das sociedades humanas. O que nos leva em direcção a teorizações como a da "civilização empática" de Rifkin ou a ficções como o "Admirável Mundo Novo" de Huxley.

O trabalho apresentado à cadeira de Redes Sociais Online - que não contém estas reflexões mas suscitou-as - pode ser lido ou descarregado na minha área do academia.edu ou aqui:

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A (des)regulação da internet

Para a única cadeira opcional do 1º ano de mestrado escolhi a unidade curricular "Política e Regulação dos Média". A ideia - mais uma vez - era fazer uma espécie de "antes-e-depois" para perceber o que mudou na comunicação com o surgimento da internet. Neste caso, o que mudou em termos de regulação da função social da comunicação. O que me interessava não era tanto (ou não era apenas) a regulação formal, mas também a regulação informal da comunicação. Por exemplo, a crença de que deve haver um serviço público de televisão ou a exigência que a conduta dos jornalistas deva ser sujeita a um código deontológico que, entre outras coisas, se destina a proteger a sua objectividade são duas formas de regulamentação formal que cada sociedade implementa ao seu jeito. Mas elas simultaneamente alimentam e alimentam-se de uma ideia geral sobre os mecanismos pelos quais se deve reger a distribuição social de informação que tem algo de informal e que se encontra interiorizada em cada um de nós. Quando falamos de "televisão" ou quando falamos de "jornalismo" formamos uma ideia do que estamos a falar que é ela própria uma instituição social. Ou seja, os conceitos de "televisão" e "jornalismo", por exemplo, são tanto instituições sociais como o são a Lei da Televisão ou o Código Deontológico dos Jornalistas (entre outros "códigos" atinentes). Aliás, estes são emanações daqueles. Tanto as instituições formais - as leis e as entidades reguladores - como as instituições informais - a ideia social subjacente - são formas de institucionalizar socialmente a distribuição de informação. São modos de organizar os recursos sociais para produzirem um fim, que é assegurar a distribuição social da informação.
Neste trabalho, o que me preocupava não eram as instituições formais - as leis ou as entidades reguladoras - mas sim a forma de institucionalizar socialmente a distribuição de informação. Porque falhamos o essencial se, ao seguirmos a desregulação introduzida pela internet, olharmos para as instituições formais - as leis - e não para as instituições informais - os modos de organizar socialmente a distribuição de informação: através de televisões privadas ou publicas (ou ambas); com respeito estrito pela objectividade ou sem ele; etc.
Por isso o que fiz foi tentar identificar os valores sociais subjacentes à regulação tradicional, enumerar as transformações colocadas em cena pelas comunicação digital e depois ver de que modo é que esses valores podiam ou não ser regulados na nova realidade comunicativa.
O resultado desiludiu-me um pouco. Primeiro porque o problema se revelou mais complexo do que eu antecipava e, segundo, porque tive muito menos tempo para fazer este trabalho do que gostaria de ter tido. Serviu pelo menos para concluir que provavelmente não chega alargar o âmbito da regulação para instituições formais de âmbito transnacional (como tem sido regra). Essas formas de regulação em geral não funcionam (demoram tempo e têm uma aplicabilidade reduzida) nem podem funcionar (o problema é de outra natureza). De certa forma, as tentativas de regulação deste sector - sejam nacionais ou transnacionais -  têm usado as mesmas ferramentas e instrumentos que eram usados para regular os mass media perante uma comunicação social cuja transformação é radical na passagem do analógico para o digital. Esse é um erro básico de perspectiva que não espanta nos reguladores porque na realidade está também dentro das nossas cabeças: quando discutimos se um blogue pode ser considerado jornalismo ou se é ou não correcto copiar um ficheiro MP3 estamos a aplicar à realidade "líquida" da era digital as categorias de análise (e portanto também de regulação) "sólidas" da era analógica.
Este trabalho pode ser lido e descarregado na minha área do academia.edu ou aqui:

domingo, 14 de julho de 2013

Porquê estudar o valor da informação?

Na cadeira de Desenho de Pesquisa, é-nos pedido que desenhemos o plano de pesquisa para a investigação que queremos fazer neste mestrado e que deverá culminar na dissertação de mestrado. Para mim isto foi relativamente simples, uma vez que aquilo que pretendo investigar já está (já estava) bastante bem definido dentro da minha cabeça e também porque, salvo uma ou duas excepções, tenho conseguido "ligar" o trabalho feito  em cada uma das cadeiras com o objectivo final da investigação que pretendo fazer no mestrado.
Esta investigação prende-se o valor social e económico da informação e o trabalho abaixo explica detalhadamente o porquê da escolha deste tema, os métodos que serão seguidos e as hipóteses de estudo. Mas eu queria destacar aqui um uma ou duas ideias principais e apontar para as conclusões esperadas.
Eu sempre achei que os meios de comunicação social tinham um peso decisivo na vivência social e na construção da cidadania. Em parte foi por isso que escolhi estudar e trabalhar em jornalismo. Aliás, já repeti mais do que uma vez que, na época, jornalista, médico e juiz eram aqueles 3 papéis que para mim eram mais do que meras profissões; eram missões!.
Por outro lado, desde cedo percebi também que o surgimento da internet alterava profundamente o papel e a relevância social dos meios de comunicação. A princípio parecia-me que isso tinha a ver com o seu modelo de negócio e que, uma vez encontrado um novo modelo de negócio, o equilíbrio seria reestabelecido, provavelmente com outros actores, mas proporcionando o mesmo resultado: assegurar a distribuição social de informação. Esta é aliás, provavelmente, a tese dominante actualmente.
Mas, ultimamente, tenho olhado cada vez mais para a distribuição social de informação pelo prisma analítico das suas instituições. Ou seja, aquilo a que nós chamamos mass media - os jornais, as revistas, as televisões - são formas institucionais de distribuir informação socialmente relevante. E aliás, são formas institucionais grandemente regulamentadas (de diversas formas) e profundamente "historicizadas". O que está a acontecer actualmente - parece-me - é uma construção social de novas instituições para fazer a mesma coisa, sendo que este processo está apenas no princípio. Obviamente, essa construção far-se-á com avanços e recuos, com viragens à direita ou à esquerda, consoante as forças sociais e económicas em colisão. Mas far-se-á inevitavelmente. Este trabalho é sobre isso. Mas, por isso mesmo, não pretendo que se restrinja ao modelo de negócio dos mass media (embora isso já fosse tarefa importante!). O que quero é compreender as formas sociais que escolhemos para distribuir informação e de que forma e que elas mudaram na transição para a sociedade em rede alimentada por tecnologias digitais. Ou seja, é um tema vasto - com duas vertentes bem claras, a económica e a social - mas que pode ser circunscrito às hipóteses e aos métodos de pesquisa descritos neste trabalho.
Queria também falar das conclusões esperadas. Basicamente porque quando estava a projectar a pesquisa, elas assustaram-me um pouco. Mas - sinceramente - são aquelas que penso que esta investigação irá produzir:

  1. O modelo de negócio dos mass media está esgotado e não pode ser recuperado no quadro da sociedade em rede
  2. O modelo de negócio dos novos media da sociedade em rede depende de uma escala global e só existe em função dela (o que explica a tendência para um só operador por sector)
  3. Contribuir para uma investigação mais abrangente sobre formas alternativas de atribuir valor à informação no quadro da sociedade em rede, considerando que o modelo actual está esgotado e é preciso encontrar um modelo alternativo que garanta as funções sociais de distribuição de informação dentro de parâmetros de racionalidade económica e relevância e adequação social.
Este último é obviamente o resultado mais importante que esta investigação pode produzir, mas é também o mais ambicioso e difícil. Por isso é que está projectado apenas como um contributo. Não espero com o trabalho desenvolvido neste mestrado responder a essa questão - formas alternativas (e sustentáveis) de garantir a distribuição social de informação na sociedade em rede - mas espero, com a investigação sobre o papel dos mass media vs. new media, poder contribuir para esse objectivo.

O trabalho que descreve em pormenor o meu projecto de pesquisa pode ser lido na íntegra na minha área do academia.edu ou aqui:

A geração digital


Para a cadeira de Literacia dos Novos Média tinha desde o início projectado analisar comparativamente as literacias exibidas pelos nativos digitais face àqueles que foram "nascidos e criados" no mundo dos mass media. Muitas vezes brincamos com isso no nosso dia-a-dia, comentando a forma a aparentemente simples como as crianças apreendem a forma de funcionamento dos novos media por comparação com a dificuldade que os mais velhos demonstram para o fazer. Isso voltou a ser moda nos videos virais a propósito do surgimento dos tablet e do carácter aparentemente intuitivo com que as crianças os usam. Houve vários videos muito populares sobre isso.
Obviamente, conhecia relativamente bem as teses de Don Tapscott e também, embora mais superficialmente, as de Nicholas Negroponte. E estes dois autores serviram de base ao trabalho para esta cadeira. Mas, por uma contingência cronológica, fiz este trabalho depois de fazer o de Questões Contemporâneas de Comunicação e Cultura, sobre a migração do analógico para o digital. E, por isso, em vez de tentar comparar as literacias de uns e outros dos protagonistas identificados acima, optei por tentar perceber de que forma é que as mutações resultantes da migração do analógico para o digital tinham nas literacias exibidas pelo nativos digitais. Dito de outro modo, tentei combinar a comparação referida com uma tentativa de a explicar como uma forma de apropriar tecnologias que são fundamental e essencialmente diferentes. Ou seja, o que me interessava era menos os estudos empíricos sobre a forma de apropriar esta ou aquela tecnologia e mais a forma de incorporar na comunicação e na relação social as mutações de base resultantes da mudança do analógico para o digital.
Este foi provavelmente o trabalho realizado até agora em que mais fiquei com a noção que havia muito mais para ler, para analisar e para escrever. Estive apenas a esgravatar a superfície de um tema que por si só dava uma tese de doutoramento. Mas que para mim era apenas um input parcial para outro tema diferente. Talvez tenha sido por isso que este trabalho foi dos que me correu pior. Deu-me menos gosto a fazer que os outros e o resultado penso que transparece isso. Ainda assim, ele aqui está. O resumo diz o seguinte:

"Na sociedade em rede conectada por comunicação mediada por computador, a produção, distribuição e consumo de informação e de bens culturais é cada vez mais dominantemente feita no formato digital. E esse facto altera não só os conteúdos informativos e culturais, mas também a forma de os apreender e incorporar no quotidiano social dos indivíduos. Neste trabalho partimos de uma análise às características mais marcantes e distintivas do formato digital de codificação face ao formato analógico para encontrar uma correspondência com o tipo de novas literacias evidenciadas pelos nativos digitais e desse modo estabelecer uma dicotomia entre esta geração e as anteriores. A hipótese subjacente a este trabalho é que os novos formatos digitais de produção, distribuição e consumo de informação, conhecimento e cultura na sociedade em rede são apropriados socialmente pelos indivíduos mediante novas literacias de media. Começaremos por analisar quais são as características distintivas dos novos media digitais, depois analisaremos quais as literacias evidenciadas pela actual geração de nativos digitais face à geração anterior a partir de estudos e análises já publicadas e, por fim, concluiremos analisando de que forma essas literacias são úteis nos outros campos de desenvolvimento da sociedade em rede."
O artigo completo está na minha página do academia.edu ou aqui:

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O paradigma digital

A cadeira de Questões Contemporâneas de Comunicação e Cultura é a única do primeiro ano de mestrado que é anual e não semestral. E é sempre leccionada por três professores externos convidados para o efeito. Este ano leccionaram a cadeira, por este ordem, Eduardo Cintra Torres, da Universidade Católica, Fausto Colombo, da Universidade Católica de Milão, e Nico Carpentier, da Universidade Livre de Bruxelas. A nós competia-nos escolher um dos temas abordados e trabalhar sobre ele. Eu gostei das aulas dos três professores, mas escolhi como tema uma das áreas tratadas - mas não aprofundada - pelo professor Fausto Colombo: a passagem do analógico para o digital.
Eu sempre intui que isso tinha alguma importância, mas estava longe de imaginar que teria o papel tão decisivo que percebi ter depois de estudar o tema.  Esta é que é verdadeiramente a mudança de paradigma que afecta todos outros campos de análise que possamos escolher para abordar as transformações em curso não só na área da comunicação, como no funcionamento geral das sociedades actuais. Penso que precisamos de perceber isso para podermos compreender o que está a passar-se na forma de distribuir socialmente a informação e sobretudo para escaparmos à tentação de olhar o que é novo à luz de instituições e categorias de análise que são velhas. Este é um erro muito frequente.
Quando escrevi os meus papers do primeiro semestre não tinha ainda tomado consciência da magnitude que representa esta mudança do analógico para o digital, porque senão ela teria sido mais central nesses primeiros trabalhos. Nem este paper o esgota. Por exemplo, não há neste trabalho nada sobre o estudo da Antropologia num mundo que deixa de ser analógico e passa a ser digital. Será que a Antropologia já meditou sobre isso? Que efeitos tem a codificação digital sobre a nossa memória colectiva? Não é óbvio que isso não pode deixar de ter efeitos transformadores massivos e profundos sobre as sociedades humanas em todas as suas vertentes?
Outra coisa que resultou para mim muito positiva deste trabalho foi ter percebido melhor como enquadrar a transformação tecnológica no quadro do livre-arbítrio dos indivíduos em sociedade e das suas escolhas colectivas. Percebi que a tecnologia não determina, dirige. Ela não impõe caminhos; ela abre caminhos possíveis. Ela constitui um substrato sobre o qual se constroem as organizações económicas e sociais humanas, assim como as escolhas pessoais dos indivíduos. As tecnologias particulares com que hoje nos confrontamos - os smartphones, os ecrãs tácteis, o wi-fi, etc - são elas próprias pequenas erupções que nascem sobre o magma transformador da transição do analógico para o digital. Esse é que é o factor decisivo para o qual devemos olhar se quisermos perceber as transformações em curso na área da comunicação.
Este transformou-se se por isso num dos três trabalhos mais importnates que já fiz até hoje neste mestrado (o de Dinâmicas Sociais da Internet é outro) e por isso será um dos pilares da minha dissertação final. O que significa que provavelmente voltará a ser citado por aqui.
O resumo do artigo diz o seguinte:
"A emergência da Sociedade em Rede introduziu mudanças significativas na forma como os agentes sociais produzem, distribuem e consomem informação, conhecimento e cultura. Uma dessas mudanças corresponde à alteração fundamental do sistema de codificação da informação, que passou de predominantemente analógico antes da Sociedade em Rede para sobretudo digital depois dela. Neste trabalho argumentaremos que a passagem da codificação analógica para a digital constitui o substrato tecnológico sobre o qual se organizam as apropriações sociais das tecnologias de informação e comunicação. Começaremos por analisar as características da codificação digital por oposição à codificação analógica, em seguida analisaremos de que forma a codificação digital condiciona o modo de produzir, distribuir e consumir informação e concluiremos avaliando como é que isso altera as condições sociais em que essa produção, distribuição e consumo acontecem."
O artigo completo pode ser lido e descarregado na minha área do academia.edu ou aqui:

sábado, 20 de abril de 2013

"1984" ou "Admirável Mundo Novo"?




Desde que estou a estudar neste mestrado já ouvi falar dezenas de vezes do "1984" de George Orwell. Obviamente a magnitude das transformações em curso, nas nossas formas de comunicar e nas nossas formas de nos relacionarmos socialmente, induz visões utópicas ou distópicas da realidade.
Mas não é isso que me ocupa agora. Esta questão voltou a ocupar-me esta semana à medida que via, à distância e sem o acompanhamento que merece, a forma como as redes sociais e o "user generated-content" foi usado na investigação (e captura) dos suspeitos do antentado de Boston. Isso fez-me lembrar aquela notável frase acima (que li pela primeira vez num trabalho de primeiro semestre de um colega sobre as questões da vigilância), uma desconstrução de Mark Miller sobre a célebre frase de George Orwell (provavelmente uma das frases mais famosas do Mundo): "Big Brother is watching you!".
Como a investigação de Boston demonstra à evidência, o verdadeiro potencial de vigilância não é externo à sociedade; é interno a ela. Não será imposto de fora para dentro; será imposto de dentro para fora!  O "Big Brother", realmente, se alguma vez existir (porque às vezes esquecemo-nos que as distopias são tão credíveis como as utopias...), será o conjunto dos cidadãos a controlarem o conjunto dos cidadãos.
Por isso é que eu acho que, se as pessoas que estudam comunicação e sociedade quiserem realmente servir-se de uma distopia, a escolha certa não é o "1984" do George Orwell; é o "Admirável Mundo Novo" do Aldous Huxley (aliás, se quiserem ver o Gattaca, também poderão tirar alguns "ensinamentos" interessantes). A vantagem do "Admirável Mundo Novo" sobre o "1984" é que o segundo é feito de fora para dentro, um escritor olha para a sociedade e recobre-a com a sua visão distópica da sua evolução; enquanto o primeiro é feito de dentro para fora, a distopia é enredada no próprio tecido da sociedade. Talvez seja uma heresia literária, mas o que me parece é que "1984" é um objecto literário enquanto o "Admirável Mundo Novo" é um objecto científico. Onde num existe literatura, no outro existe ciência. Por isso é que o segundo seria uma melhor distopia para invocar num mestrado de comunicação e sociedade.
Aliás, só ao pesquisar para este post é que percebi que Neil Postman, um investigador que já citei por várias vezes no primeiro semestre, já se tinha apercebido há muito desta fundamental diferença entre Huxley e Orwell (ou, mais correctamente, entre o "1984" e o "Admirável Mundo Novo"). Diz ele, em "Amusing Ourselves to Death"
What Orwell feared were those who would ban books. What Huxley feared was that there would be no reason to ban a book, for there would be no one who wanted to read one. Orwell feared those who would deprive us of information. Huxley feared those who would give us so much that we would be reduced to passivity and egotism. Orwell feared that the truth would be concealed from us. Huxley feared the truth would be drowned in a sea of irrelevance. Orwell feared we would become a captive culture. Huxley feared we would become a trivial culture, preoccupied with some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy. As Huxley remarked in Brave New World Revisited, the civil libertarians and rationalists who are ever on the alert to oppose tyranny "failed to take into account man's almost infinite appetite for distractions." In 1984, Orwell added, people are controlled by inflicting pain. In Brave New World, they are controlled by inflicting pleasure. In short, Orwell feared that what we fear will ruin us. Huxley feared that our desire will ruin us.
Obviamente, a ideia de pôr os cidadãos (e os seus telemóveis, as suas câmaras, a suas fotografias) à procura de um criminoso, qualquer que ele seja, é muito assustadora.  E este caso de Boston merece um estudo profundo (que, não tenho dúvidas, alguém do MIT estará a preparar!) nesse aspecto, pois pode ser um case-study com alguns elementos inéditos.
Mas aquilo se inscreve na sociedade será sempre mais importante do que aquilo que se inscreve sobre ela. É essa a lição que Huxley nos dá e é por isso que as suas "previsões" podem ser muito mais úteis em termos científicos do que as do "1984" de Orwell. Se querem uma distopia (???), escolham esta!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Present Shock!


O conceito de timeless time que Castells associa à comunicação na era da sociedade em rede é levado ao extremo por Douglas Rushkoff neste livro recente: "Present Shock - When Everything Happens Now".
Para já é um trocadilho interessante - e assumido (explicado num dos videos abaixo) com o "Future Shock" do Alvin Toffler. Mas, sobretudo, leva o conceito de timeless time muito mais além e questiona muitos outros parâmteros da civilização a partir da era digital.
Obviamente, Douglas Rushkoff não é um cientista nem isto é ciência. Mas, quem tiver paciência para acompanhar os videos, pode encontrar muitas ideias de investigação bem interessantes.
Para mim, o tema do shift analógico/digital é central como tema de estudo, pelas consequências que parece ter não só na maneira como transmitimos informação (em sentido lato) como também na maneira como nos apropriamos dela, a arquivamos, a reutilizamos, etc. Nessa medida, as teses de Rushkoff são interessantes e desafiadoras. Ainda não consegui encontrar este livro em formato digital, mas estou a ansioso por lhe "deitar a mão". Não tarda nada vem pela Amazon em formato "sumo de árvore"!
Eis um video onde Douglas Rushkoff explica o que é o "Presente Shock". É um video longo, mas está carregado de ideias interessantes a todos os níveis. Além disso, o homem é tão frenético que chega a ser hilariante! Faz lembrar o Woody Allen. Quem preferir um video mais pequeno tem este, que também é recente, numa conferência da O'Reilly - http://youtu.be/cdawqlu0_JU - seguido de uma conversa com Eva Williams, um dos fundadores do Twitter - http://youtu.be/_MPXe4JwfAc




Por outro lado, uma fenómeno interessante - porque de certa forma incongruente - de que temos falado nas aulas de mestrado é o dos "drop-outs", as pessoas que embora reunindo os meios e as literacias para os usarem, abandonam voluntariamente a internet e/ou as redes sociais.
As teses de Rushkoff também são obviamente interessantes nessa perspectiva, porque sublinham o potencial de ansiedade que o o timeless time da era digital pode insinuar em quem não for capaz de prescindir de uma grau mínimo de controle. Nessa media, é interessante acompanhar esta conversa entre Rushkoff e Paul Miller, o jornalista do The Verge que há quase um ano decidiu "sair da internet" e voltar para contar a história.