Pergunta: Alguém sabe o que é isto?
Resposta: É isto, segundo o vosso computador!
Blogue de acompanhamento ao Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação do ISCTE-IUL, anos lectivos 2012-2013. Reflexões sobre os temas tratados. Ligações relevantes e informações complementares.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
E agora... o jornalismo!
Ok, o modelo de negócio dos media está esgotado e a sua função social mudou radicalmente! E então, como fica o jornalismo? O que é o jornalismo, afinal? Qual é a sua função no contexto da sociedade em rede mediada por computadores e ligada por tecnologias de informação e comunicação digitais? Há futuro para o jornalismo fora dos modelos de negócio tradicionais? O jornalismo ainda faz falta no mundo em que vivemos? Se o jornalismo tiver futuro, que futuro é esse?
Estas serão algumas das questões que me irão estar a ocupar nos próximos tempos. Respostas (possíveis) lá para Novembro!
P.S. Quem conhecer bons exemplos, que me os indique, s.f.f. Obrigado!
Estas serão algumas das questões que me irão estar a ocupar nos próximos tempos. Respostas (possíveis) lá para Novembro!
P.S. Quem conhecer bons exemplos, que me os indique, s.f.f. Obrigado!
sexta-feira, 25 de julho de 2014
O valor económico e social da informação no quadro da sociedade em rede
E pronto! A dissertação de mestrado está entregue, defendida e avaliada! O que significa que o mestrado está completo!
Esta dissertação é uma investigação teórica (com dados empíricos) sobre a viabilidade dos media no quadro da sociedade em rede. A conclusão é que o modelo de negócio e a função social dos media não é sustentável na sociedade em rede e que eles foram substituídos na sua função por um conjunto de outras empresas - os "novos media" - que actuam como intermediários e não como produtores de informação. Mas - e aqui está a conclusão principal - também estes novos media são afectados pela redução do valor económico da informação e só podem subsistir na escala global em que naturalmente operam. Ou seja, tanto os media tradicionais como os novos media são afectados por aquilo que parece ser uma redução do valor económico da informação (ou o valor economicamente capturável da mesma, que é sensivelmente a mesma coisa). A diferença é que os segundo estão adaptados às condições de sobrevivência na nova sociedade em rede e os primeiros não.
Mas porquê esta redução do valor? Esta é uma pergunta que fiz a mim próprio (e a muita gente) durante vários anos, sem respostas satisfatórias. Porque razão o CPM da web é tão diferente do rendimento da publicidade em papel (ou em televisão)? Porque razão ganhamos menos dinheiro com milhões de utilizadores digitais do que com milhares de leitores das edições em papel? A resposta mais habitual (e menos insatisfatória...) era: "é por causa da abundância!" Sim, mas o que causa a abundância? Porque vivemos agora num ambiente de informação abundante e vivíamos antes num ambiente de informação escassa? A resposta, descobri-a nas várias (e intensas) leitura feitas durante o primeiro ano. As transformações em curso na sociedade em função da adopção (apropriação é o termo certo) das tecnologias de informação e comunicação digitais são vastas e profundas, muito mais do que parece à primeira vista. 1) vivemos agora numa sociedade em rede que tem SEMPRE linhas de comunicação em aberto e não tem um centro de comando da rede; 2) estamos a deixar de usar de tecnologias de comunicação analógicas e usamos cada vez mais tecnologias digitais comandadas por computadores; 3) a comunicação agora é bidireccional e os indivíduos têm à sua disposição as ferramentas para produzirem, alterarem e partilharem informação como entenderem; e 4) as redes têm alcance global e portanto têm também alcance global todas as actividades que se desenrolam nelas e sobre elas (que hoje em dia são quase todas).
Mas o facto curioso - e, prevejo que ainda com mais implicações - é que se estas transformações implicam uma redução do valor económico (ou economicamente capturável) da informação, também parecem induzir um acréscimo de do valor social da informação, embora esse seja bem mais difícil de "medir". Ter informação em abundância a circular na rede e ter sempre disponíveis ligações de rede para activar é um elemento de enriquecimento da existência social dos indivíduos.
O que isto significa é que, se as transformações em causa reduzem o valor económico da informação, elas parecem incrementar o seu valor social.
Este é um paradoxo interessante e que ma parece abrir linhas de investigação muitos interessantes (que, aliás, não tive "espaço" para explorar na dissertação). Faz sentido que um motor de busca ou uma rede social dominante sejam exploradas por entidades privadas? Faz sentido aplicar a essas entidades globais as legislações nacionais? E os impostos? Será que a abundância faz da informação um bem público global? E, se sim, que consequências é que isso tem em termos de organização politica e social?
As transformações em curso nas tecnologias de informação e comunicação arrasam por completo o paradigma de informação e comunicação em que vivíamos. Mas têm consequências ainda mais vastas do que isso, basicamente porque não há construções sociais (e portanto construções políticas) sem comunicação. Ou seja, a hecatombe que ocorreu e está a ocorrer no sector dos media vai ocorrer noutros sectores da sociedade. Resta saber quais e como.
O resumo desta dissertação está no powerpoint abaixo. A dissertação, em formato integral e tal como sujeita a avaliação, está neste link.
A minha defesa foi feito perante um júri presidido pela professora Rita Espanha, com o professor Pedro Pereira Neto como arguente e o professor Gustavo Cardoso como orientador. Agradeço aos três as observações que fizeram, os elogios e - obviamente! - a espectacular nota de 19 valores!
Agradeço também à minha família, em especial aos dois "D", e a todos os colegas de mestrado.
A seguir espero que o trabalho realizado neste mestrado possa ter sequência noutras investigações que decorrem desta. Algumas já estão em caminho e serão conhecidas... quando o puderem ser.
Esta dissertação é uma investigação teórica (com dados empíricos) sobre a viabilidade dos media no quadro da sociedade em rede. A conclusão é que o modelo de negócio e a função social dos media não é sustentável na sociedade em rede e que eles foram substituídos na sua função por um conjunto de outras empresas - os "novos media" - que actuam como intermediários e não como produtores de informação. Mas - e aqui está a conclusão principal - também estes novos media são afectados pela redução do valor económico da informação e só podem subsistir na escala global em que naturalmente operam. Ou seja, tanto os media tradicionais como os novos media são afectados por aquilo que parece ser uma redução do valor económico da informação (ou o valor economicamente capturável da mesma, que é sensivelmente a mesma coisa). A diferença é que os segundo estão adaptados às condições de sobrevivência na nova sociedade em rede e os primeiros não.
Mas porquê esta redução do valor? Esta é uma pergunta que fiz a mim próprio (e a muita gente) durante vários anos, sem respostas satisfatórias. Porque razão o CPM da web é tão diferente do rendimento da publicidade em papel (ou em televisão)? Porque razão ganhamos menos dinheiro com milhões de utilizadores digitais do que com milhares de leitores das edições em papel? A resposta mais habitual (e menos insatisfatória...) era: "é por causa da abundância!" Sim, mas o que causa a abundância? Porque vivemos agora num ambiente de informação abundante e vivíamos antes num ambiente de informação escassa? A resposta, descobri-a nas várias (e intensas) leitura feitas durante o primeiro ano. As transformações em curso na sociedade em função da adopção (apropriação é o termo certo) das tecnologias de informação e comunicação digitais são vastas e profundas, muito mais do que parece à primeira vista. 1) vivemos agora numa sociedade em rede que tem SEMPRE linhas de comunicação em aberto e não tem um centro de comando da rede; 2) estamos a deixar de usar de tecnologias de comunicação analógicas e usamos cada vez mais tecnologias digitais comandadas por computadores; 3) a comunicação agora é bidireccional e os indivíduos têm à sua disposição as ferramentas para produzirem, alterarem e partilharem informação como entenderem; e 4) as redes têm alcance global e portanto têm também alcance global todas as actividades que se desenrolam nelas e sobre elas (que hoje em dia são quase todas).
Mas o facto curioso - e, prevejo que ainda com mais implicações - é que se estas transformações implicam uma redução do valor económico (ou economicamente capturável) da informação, também parecem induzir um acréscimo de do valor social da informação, embora esse seja bem mais difícil de "medir". Ter informação em abundância a circular na rede e ter sempre disponíveis ligações de rede para activar é um elemento de enriquecimento da existência social dos indivíduos.
O que isto significa é que, se as transformações em causa reduzem o valor económico da informação, elas parecem incrementar o seu valor social.
Este é um paradoxo interessante e que ma parece abrir linhas de investigação muitos interessantes (que, aliás, não tive "espaço" para explorar na dissertação). Faz sentido que um motor de busca ou uma rede social dominante sejam exploradas por entidades privadas? Faz sentido aplicar a essas entidades globais as legislações nacionais? E os impostos? Será que a abundância faz da informação um bem público global? E, se sim, que consequências é que isso tem em termos de organização politica e social?
As transformações em curso nas tecnologias de informação e comunicação arrasam por completo o paradigma de informação e comunicação em que vivíamos. Mas têm consequências ainda mais vastas do que isso, basicamente porque não há construções sociais (e portanto construções políticas) sem comunicação. Ou seja, a hecatombe que ocorreu e está a ocorrer no sector dos media vai ocorrer noutros sectores da sociedade. Resta saber quais e como.
O resumo desta dissertação está no powerpoint abaixo. A dissertação, em formato integral e tal como sujeita a avaliação, está neste link.
A minha defesa foi feito perante um júri presidido pela professora Rita Espanha, com o professor Pedro Pereira Neto como arguente e o professor Gustavo Cardoso como orientador. Agradeço aos três as observações que fizeram, os elogios e - obviamente! - a espectacular nota de 19 valores!
Agradeço também à minha família, em especial aos dois "D", e a todos os colegas de mestrado.
A seguir espero que o trabalho realizado neste mestrado possa ter sequência noutras investigações que decorrem desta. Algumas já estão em caminho e serão conhecidas... quando o puderem ser.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Os media e a inovação
Na cadeira de Modelos de Negócio e Economia do Software de Código Aberto, leccionada por 3 professores diferentes, a avaliação era também um pouco estranha, com 60% da nota derivados de duas apresentações em aula sobre business models e 40 por cento resultantes de um trabalho escrito sobre inovação.
Na parte dos modelos de negócio, o mais interessante foi a descoberta do Business Model Canvas de Osterwalder. Não conhecia este recurso e realmente é muito interessante e desconfio que ainda me vai ser muito útil futuramente em termos profissionais. Quem não conhece e trabalha numa área que envolva o desenvolvimento de novos negócios deve ficar a conhecer.
O trabalho escrito sobre inovação partia de um modelo de inovação chamado Chain-Interactive Model e passava pro aplicar esse modelo a um negócio ou sector em concreto. Eu achei o modelo interessante (sobretudo pela sua complexidade) e achei que seria interessante aplicá-lo precisamente ao sector dos media. O resultado é o pequeno trabalho (mais curto do que os restantes) que está publicado na minha área do Academia.edu.
O mais curioso neste trabalho é que ele me permitiu sistematizar algumas ideias sobre a forma como as alterações do modo de produzir, distribuir e consumir informação afectam o negócio dos meios de comunicação social tradicionais e que transformações eles têm que (tentar) implementar para conseguirem adaptar-se às condições de inovação no novo mundo digital em que vivemos. É um trabalho mais ligeiro que o habitual, mas ainda assim merece aqui um referência. Está feita!
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Afinal para que servem as redes sociais online?
No segundo ano de mestrado, uma das poucas cadeiras envolve obrigatoriamente uma técnica de pesquisa. Supõe-se, como preparação para a construção científica da componente empírica da dissertação de mestrado. De todas as unidades curriculares disponíveis, esta - Análise de Redes em Ciências Sociais - foi a única que realmente despertou a minha atenção. Basicamente, porque era a única das cadeiras disponíveis que podia efectivamente ser útil para a construção de minha dissertação.
Para a dissertação estou a projectar, como já referi antes, uma parte de análise do valor económico da informação e outra da análise do valor social da informação. As conclusões resultarão do cruzamento entre as duas análises. Já sei muito bem como vou fazer a primeira parte, mas tenho ainda muitas dúvidas sobre como fazer a segunda. E devo dizer que não se dissiparam por completo.
Na cadeira de Redes Sociais Online fiz uma análise teórica do tema e foquei-me muito no conceito de Capital Social. A ideia, nesta UC de Análise de Redes em Ciências Sociais, era tentar operacionalizar a questão e fazer uma primeira abordagem - exploratória - às formas possíveis de analisar empiricamente o valor social da informação. E a conclusão principal é que isso deve ser pelo menos tão difícil quanto parecia à primeira vista!
Aprendemos as bases do Unicet e do Gephi e eu explorei por minha conta outras alternativas, como o NodeXL, o Netvizz, Datasift, etc. Acabei por fazer a análise com o NodeXL porque era o único que permite fazer o download directo de uma rede de Facebook (perfil, página ou grupo). Mas deu para perceber duas coisas: 1ª o volume de informação é tal que exige - para um estudo sério - exige capacidade de computação especial; e 2º as limitações de extracção de dados são um obstáculo difícil de transpor (mais uma vez, só com programação específica). Isto deixou-me um pouco apreensivo em relação ao desenvolvimento desta componente da minha dissertação. Tenho duas alternativas: ou encontro uma forma engenhosa de conseguir reproduzir empiricamente os percursos informativos que me interessa analisar; ou então tenho que me restringir aos estudos empíricos (bem interessantes, por sinal) que descobri nesta pesquisa e que na realidade não pude usar com a profundidade que merecem. Provavelmente vou apontar para esta segunda hipótese.
No essencial, completei neste trabalho as conclusões que já tinha explorado no trabalho de redes sociais. Basicamente, o que a massiva abundância de conexões na era das redes sociais online proporciona é uma disseminação massiva da informação, de uma magnitude inédita na história da civilização. E isso - considerando que do ponto de vista social mais informação é sempre melhor que menos informação - significa que a abundância de informação incrementa o seu valor social. Do ponto de vista teórico (e até tendo em conta os trabalho experimentais citados aqui) isso está bastante claro é é fácil de sustentar. Mas demonstrá-lo empiricamente é uma equação... complicada!
O trabalho integral está publicado na minha conta do Academia.edu. O resumo diz o seguinte:
"A análise formal de redes sociais é um instrumento poderoso para a observação da forma como se organizam os actores sociais e como decorrem os processos sociais que os envolvem. Com a massificação das tecnologias de informação e comunicação digitais e da internet registaram-se mudanças profundas e massivas na forma de distribuir informação na sociedade em rede. Neste trabalho iremos analisar essas transformações à luz da análise de redes sociais. Numa primeira fase abordaremos o conceito de rede social enquanto metáfora de carácter sociológico e as métricas mais importantes para o estudo em causa. Depois analisaremos as transformações teóricas que a sociedade em rede conectada por tecnologias digitais operou na distribuição de informação. E, numa terceira parte, olharemos em detalhe para os processos de distribuição de informação numa página de Facebook através de dois instrumentos de análise empíricos. Concluiremos analisando de que forma as observações efectuadas confirmam as transformações verificadas na distribuição de informação na sociedade em de que forma isso pode ter impacto na valorização social da informação."
Algures na conclusão está o seguinte:
"A conclusão que tiramos, em linha com o que tinha sido inicialmente colocado como hipótese, é que as redes sociais online como o Facebook contribuem para um padrão de distribuição de informação fundamentalmente diferente daquele que existia anteriormente às tecnologias digitais. A bidireccionalidade das redes digitais e a facilidade de emitir, partilhar e disseminar informação levam a que a informação seja muito mais abundante nas redes sociais online mediadas por computadores do que alguma vez foi nas redes sociais não mediadas anteriores à era digital. O resultado, deste ponto de vista, é a super-abundância de informação na rede e forma fácil e exponencial como a informação pode circular e disseminar-se na rede.Claro que esta conclusão é um pouco abrupta. Não quer dizer que esteja errada. Não creio que esteja. Mas a sua sustentação não é ainda suficientemente sólida. Daí que o "passo" pareça demasiado "rápido" nesta parte final. Mas este é ainda um "work in progress". Esta é apenas mais uma fase.
O efeito prático, argumentámos, é que isso incremenda grandemente o capital social dos indivíduos, uma vez que lhes facilita a mobilização de recursos nos vários pontos de rede com os quais estão conectados. Ora, se entendermos a informação como um recurso social, então as redes sociais online contribuem para a abundância desse recurso. E, por outro lado, se considerarmos que a informação é um recurso que, do ponto de vista social, só adquire valor quando usado, então mais abundância significa maior valor, uma vez que mais agentes sociais poderão usar a informação se ela for abundante. É por isso que as redes sociais contribuem para o incremento do capital social de cada indivíduo e da comunidade como um todo. Donde decorre a conclusão de que a abundância de informação incrementa o seu valor social."
sábado, 11 de janeiro de 2014
Prémio de Excelência ISCTE 2012/2013
Acho que ainda não tinha feito referência a isto aqui no blogue. Entre os vários Prémios de Excelência que o ISCTE atribui todos os anos lectivos, existe um para a melhor média de frequência do primeiro ano em cada um dos mestrados ministrados.
No mestrado de Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação a melhor média do primeiro ano foi a minha, com 17,90. Deu direito a um diploma, a uma cerimónia publica de entrega dos diploma no "Dia do ISCTE" e há-de dar um prémio de 1000 euros, quando for pago... (ainda não foi).
O Hugo Ramos esteve lá e filmou o momento para a posteridade! Obrigado, Hugo! Pela presença e pela "footage"!
No mestrado de Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação a melhor média do primeiro ano foi a minha, com 17,90. Deu direito a um diploma, a uma cerimónia publica de entrega dos diploma no "Dia do ISCTE" e há-de dar um prémio de 1000 euros, quando for pago... (ainda não foi).
O Hugo Ramos esteve lá e filmou o momento para a posteridade! Obrigado, Hugo! Pela presença e pela "footage"!
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Do analógico ao digital
Um ponto de situação rápido sobre publicação de artigos. O estado da coisa neste momento é o seguinte: três artigos em língua portuguesa enviados para a OBS*, dois publicados, um recusado; um artigo enviado para uma revista estrangeira de topo recusado, depois reenviado para outra revista e presentemente em apreciação.
A notícia de hoje é muito boa e trata-se da publicação do segundo artigo resultante do mestrado na revista OBS*. E porque é que é uma notícia particularmente boa. Primeiro porque é um artigo que eu gostei muito de fazer e segundo porque é um artigo central na investigação que pretendo fazer e também - arrisco - no quadro analítico que é preciso ter para perceber na plenitude o que está a acontecer à produção, transmissão e consumo de informação no quadro da sociedade em rede. Quando abordamos numa perspectiva holista - como eu tentei fazer - percebemos que a passagem do analógico para o digital é o factor individual que melhor explica a multiplicidade de fenómenos sociais que eclodem à nossa volta na apropriação social das tecnologias de informação e comunicação. Não é o Google, nem é o Facebook, nem são os smartphones ou os tablets ou mesmo a internet - em sim mesma - que explicam essas transformações sociais (e económicas, e culturais!); é este simples facto da passagem do analógico para o digital. Por isso, compreender isto na plenitude é também, penso eu, uma condição para perceber verdadeiramente o que pode acontecer no futuro próximo. É em parte com base nesta reflexão que eu já tenho opinado que quem nos media continua a pensar em termos de "conteúdo" está a passar ao lado do problema. O "conteúdo" é incompatível com o digital. No mundo digital não existe "conteúdo" porque não existe "forma". E isso obriga-nos a repensar toda a questão. Eu percebi isso quando estava a fazer este trabalho e espero que quem o leia também perceba isso (se não perceber... é porque está mal escrito!).
Quando comecei a fazer o mestrado, não sabia que ia fazer este trabalho e nunca tinha pensado nele. Entrei no mestrado com um caminho teórico delineado. Só à media que ia estudando o assunto percebi que esta questão - a passagem do analógico para o digital - devia ser considerada e, embora lateral ao corpo central da minha investigação, seria determinante do mesmo. Não é possível, por exemplo, pensar a questão do modelo do negócio dos media e do valor da informação sem considerar também, como pano de fundo, a migração da nossa civilização do analógico para o digital. Depois de fazer o trabalho (e até à medida que o releio) fico com a ideia que está é de facto um dos trabalhos mais importantes que fiz no mestrado. Se tivesse que começar de novo, talvez começasse por aqui...
A notícia de hoje é muito boa e trata-se da publicação do segundo artigo resultante do mestrado na revista OBS*. E porque é que é uma notícia particularmente boa. Primeiro porque é um artigo que eu gostei muito de fazer e segundo porque é um artigo central na investigação que pretendo fazer e também - arrisco - no quadro analítico que é preciso ter para perceber na plenitude o que está a acontecer à produção, transmissão e consumo de informação no quadro da sociedade em rede. Quando abordamos numa perspectiva holista - como eu tentei fazer - percebemos que a passagem do analógico para o digital é o factor individual que melhor explica a multiplicidade de fenómenos sociais que eclodem à nossa volta na apropriação social das tecnologias de informação e comunicação. Não é o Google, nem é o Facebook, nem são os smartphones ou os tablets ou mesmo a internet - em sim mesma - que explicam essas transformações sociais (e económicas, e culturais!); é este simples facto da passagem do analógico para o digital. Por isso, compreender isto na plenitude é também, penso eu, uma condição para perceber verdadeiramente o que pode acontecer no futuro próximo. É em parte com base nesta reflexão que eu já tenho opinado que quem nos media continua a pensar em termos de "conteúdo" está a passar ao lado do problema. O "conteúdo" é incompatível com o digital. No mundo digital não existe "conteúdo" porque não existe "forma". E isso obriga-nos a repensar toda a questão. Eu percebi isso quando estava a fazer este trabalho e espero que quem o leia também perceba isso (se não perceber... é porque está mal escrito!).
Quando comecei a fazer o mestrado, não sabia que ia fazer este trabalho e nunca tinha pensado nele. Entrei no mestrado com um caminho teórico delineado. Só à media que ia estudando o assunto percebi que esta questão - a passagem do analógico para o digital - devia ser considerada e, embora lateral ao corpo central da minha investigação, seria determinante do mesmo. Não é possível, por exemplo, pensar a questão do modelo do negócio dos media e do valor da informação sem considerar também, como pano de fundo, a migração da nossa civilização do analógico para o digital. Depois de fazer o trabalho (e até à medida que o releio) fico com a ideia que está é de facto um dos trabalhos mais importantes que fiz no mestrado. Se tivesse que começar de novo, talvez começasse por aqui...
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Ainda faz sentido a actualidade das notícias?
Há poucos dias um video de Maria João Pires, confrontada com um concerto (ou um ensaio, já veremos) para o qual não estava preparada tornou-se viral nas redes sociais.
A história tinha começado num jornal inglês - The Telegraph - sem ser claro se era um acontecimento recente; e era acompanhada de um video - alojado no YouTube - que era um trecho de um documentário mais longo cuja proveniência também não era clara.
Depois de a história se tornar viral nas redes sociais, quase todos os media portugueses - e até alguns espanhóis - pegaram no assunto (como se pode ver aqui) e, ou reproduziram a história ou reproduziram o video. Primeiro facto curioso: quase nenhum acertou nas circunstâncias em que o episódio ocorreu ou quando ocorreu: foi há um ano? foi há 3 anos? Na verdade, se estiver correcto o esclarecimento "histórico" deste post no Facebook, a coisa ocorreu há 15 anos (!!!) e foi num ensaio e não num concerto.
Obviamente que é curioso que os media vão atrás das redes sociais. Isso, em si mesmo, já é motivo de reflexão para quem trabalha nos ou estuda os media. Mas isso, sinceramente, já não é novidade! Tem acontecido recorrentemente a partir do momento em que o media perceberam que as histórias virais das redes sociais lhes podiam dar pageviews. Muitas pageviews!
O que é mais interessante é a forma como este e todos os casos semelhantes questionam o conceito de actualidade das notícias. Como se pode ver no post Facebook acima e nos respectivos comentários, o que está subjacente é uma crítica à "incompetência" dos media para tratarem, profissionalmente esta história (o que significaria, provavelmente, ignorá-la! Precisamente por causa da falta de "actualidade"). Mas eu acho que, a bem do debate, devíamos experimentar voltar a questão do avesso.
Tomemos-me a mim próprio como exemplo: eu não conhecia esta história. Nenhum dos media que li há 15 anos a reproduziu (que eu me lembre) e ninguém me a recontou nos últimos 15 anos. No entanto, eu achei a história fascinante assim que tive conhecimento dela. Por isso a reproduzi. Claro que se pode perguntar, neste ponto, se eu fui verificar a respectiva "actualidade". Mas isso é voltar a entrar na espiral do imperativo de "actualidade" que referi anteriormente.
Voltar a questão do avesso significa precisamente questionar: e se fosse a "actualidade" que estivesse errada? Porque razão é que seguimos o conceito de actualidade ao ponto de acharmos que os media são ridículos quando saem da agenda da "actualidade"?
O "caso" Maria João Pires é apenas mais um que demonstra como actualmente a circulação de informação se faz independentemente do conceito de actualidade. O que obriga a questionar se os media devem, hoje, seguir o imperativo da actualidade. A passagem do analógico para o digital tem, entre outras consequências profundas, essa (que não o é menos): a informação digital está sempre disponível e portanto o "tempo" da respectiva circulação não pode ser controlado, nem pelos media, nem por ninguém. Este video e esta história de Maria João Pires foi viral hoje, aqui, mas nada impede que não volte a reemergir daqui a 5 anos ou daqui a alguns meses noutro "local" diferente ("local" está entre aspas porque no mundo digital não há "locais", mas apesar de tudo ainda há relacionamento sociais online geograficamente fundados, ou seja, as nossas redes sociais ainda tendem a ser predominantemente "locais").
As transformações em curso na distribuição de informação na sociedade em rede geram epifenómenos como o do ressurgimento momentâneo desta história datada da pianista Maria João Pires. Embora isso possa parecer estranho, agarrar-mo-nos a categorias do antigamente - como a de "actualidade" - para explicar os fenómenos, pode gerar mais confusão do que clareza. O conceito de "timeless time" de Castells há muito que explica como e porquê o "tempo" assume contornos diferentes na sociedade em rede mediada por computadores. Ora, se o tempo, pela evolução das formas de comunicar em sociedade, se altera na sua natureza, porque razão não se deveria alterar o conceito de "actualidade" a que os media estão aparentemente tão imperiosamente submetidos? Os media podem ir atrás das histórias virais para conseguirem pageviews. E podem fazê-lo com mais ou menos "elegância". Mas nunca perceberão o que realmente está a acontecer enquanto não perceberem as consequências práticas dos conceitos de "timeless time" e "space of flows". Há "novos media" que - sem os constrangimentos da "actualidade", entre outros - estão a ocupar esse "espaço".
No limite é possível que a aceleração exponencial do tempo gere no final a sua supressão, como propõe Harmut Rosa no livro "Social Acceleration". Um "frenetic standstill" em que tudo acontece a todo o tempo e portanto nada muda na realidade e nada tem um rumo. Ou seja, a pós-história ou o fim da história. Aliás, se pensarmos que - como eu aprendi com Marc Bloch - a história começou com a invenção da escrita (o registo analógico dos acontecimentos), é pelo menos plausível que o registo digital dos acontecimentos altere novamente o conceito de história. Mas isso, é outra discussão... (to be continued).
P.S. Para quem achar que estas ideias são arrojadas, tenho um desafio ainda mais arrojado e - este sim - verdadeiramente assustador! Experimentem reler os parágrafos anteriores e substituir "actualidade" por "veracidade"...
A história tinha começado num jornal inglês - The Telegraph - sem ser claro se era um acontecimento recente; e era acompanhada de um video - alojado no YouTube - que era um trecho de um documentário mais longo cuja proveniência também não era clara.
Depois de a história se tornar viral nas redes sociais, quase todos os media portugueses - e até alguns espanhóis - pegaram no assunto (como se pode ver aqui) e, ou reproduziram a história ou reproduziram o video. Primeiro facto curioso: quase nenhum acertou nas circunstâncias em que o episódio ocorreu ou quando ocorreu: foi há um ano? foi há 3 anos? Na verdade, se estiver correcto o esclarecimento "histórico" deste post no Facebook, a coisa ocorreu há 15 anos (!!!) e foi num ensaio e não num concerto.
Obviamente que é curioso que os media vão atrás das redes sociais. Isso, em si mesmo, já é motivo de reflexão para quem trabalha nos ou estuda os media. Mas isso, sinceramente, já não é novidade! Tem acontecido recorrentemente a partir do momento em que o media perceberam que as histórias virais das redes sociais lhes podiam dar pageviews. Muitas pageviews!
O que é mais interessante é a forma como este e todos os casos semelhantes questionam o conceito de actualidade das notícias. Como se pode ver no post Facebook acima e nos respectivos comentários, o que está subjacente é uma crítica à "incompetência" dos media para tratarem, profissionalmente esta história (o que significaria, provavelmente, ignorá-la! Precisamente por causa da falta de "actualidade"). Mas eu acho que, a bem do debate, devíamos experimentar voltar a questão do avesso.
Tomemos-me a mim próprio como exemplo: eu não conhecia esta história. Nenhum dos media que li há 15 anos a reproduziu (que eu me lembre) e ninguém me a recontou nos últimos 15 anos. No entanto, eu achei a história fascinante assim que tive conhecimento dela. Por isso a reproduzi. Claro que se pode perguntar, neste ponto, se eu fui verificar a respectiva "actualidade". Mas isso é voltar a entrar na espiral do imperativo de "actualidade" que referi anteriormente.
Voltar a questão do avesso significa precisamente questionar: e se fosse a "actualidade" que estivesse errada? Porque razão é que seguimos o conceito de actualidade ao ponto de acharmos que os media são ridículos quando saem da agenda da "actualidade"?
O "caso" Maria João Pires é apenas mais um que demonstra como actualmente a circulação de informação se faz independentemente do conceito de actualidade. O que obriga a questionar se os media devem, hoje, seguir o imperativo da actualidade. A passagem do analógico para o digital tem, entre outras consequências profundas, essa (que não o é menos): a informação digital está sempre disponível e portanto o "tempo" da respectiva circulação não pode ser controlado, nem pelos media, nem por ninguém. Este video e esta história de Maria João Pires foi viral hoje, aqui, mas nada impede que não volte a reemergir daqui a 5 anos ou daqui a alguns meses noutro "local" diferente ("local" está entre aspas porque no mundo digital não há "locais", mas apesar de tudo ainda há relacionamento sociais online geograficamente fundados, ou seja, as nossas redes sociais ainda tendem a ser predominantemente "locais").
As transformações em curso na distribuição de informação na sociedade em rede geram epifenómenos como o do ressurgimento momentâneo desta história datada da pianista Maria João Pires. Embora isso possa parecer estranho, agarrar-mo-nos a categorias do antigamente - como a de "actualidade" - para explicar os fenómenos, pode gerar mais confusão do que clareza. O conceito de "timeless time" de Castells há muito que explica como e porquê o "tempo" assume contornos diferentes na sociedade em rede mediada por computadores. Ora, se o tempo, pela evolução das formas de comunicar em sociedade, se altera na sua natureza, porque razão não se deveria alterar o conceito de "actualidade" a que os media estão aparentemente tão imperiosamente submetidos? Os media podem ir atrás das histórias virais para conseguirem pageviews. E podem fazê-lo com mais ou menos "elegância". Mas nunca perceberão o que realmente está a acontecer enquanto não perceberem as consequências práticas dos conceitos de "timeless time" e "space of flows". Há "novos media" que - sem os constrangimentos da "actualidade", entre outros - estão a ocupar esse "espaço".
No limite é possível que a aceleração exponencial do tempo gere no final a sua supressão, como propõe Harmut Rosa no livro "Social Acceleration". Um "frenetic standstill" em que tudo acontece a todo o tempo e portanto nada muda na realidade e nada tem um rumo. Ou seja, a pós-história ou o fim da história. Aliás, se pensarmos que - como eu aprendi com Marc Bloch - a história começou com a invenção da escrita (o registo analógico dos acontecimentos), é pelo menos plausível que o registo digital dos acontecimentos altere novamente o conceito de história. Mas isso, é outra discussão... (to be continued).
P.S. Para quem achar que estas ideias são arrojadas, tenho um desafio ainda mais arrojado e - este sim - verdadeiramente assustador! Experimentem reler os parágrafos anteriores e substituir "actualidade" por "veracidade"...
domingo, 20 de outubro de 2013
Mestrado, ano 2
Começou o segundo ano de mestrado. Depois de ter publicado aqui todos os trabalhos submetidos a avaliação no primeiro ano, tenciono fazer o mesmo no segundo ano. Este ano lectivo terá apenas 3 unidades curriculares - uma obrigatória, uma optativa metodológica e uma optativa livre. Todo o trabalho será dirigido à produção da dissertação de Mestrado.
A unidade curricular obrigatória - Dissertação em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação - irá correr todo o ano e conduzirá a uma dissertação que será orientada pelo professor Gustavo Cardoso. O meu objectivo é fazer uma dissertação sobre "o valor económico e social da informação no quadro da sociedade em rede" e o que pretendo basicamente é tentar perceber se a transição para a sociedade em rede afectou o valor (económico e social) da informação e como. Será uma dissertação que começa por ser teórica, mas recorrerá à recolha de dados de várias fontes (secundárias e ou primárias) para produzir conclusões.
O projecto de investigação está descrito detalhadamente no trabalho sujeito a avaliação na cadeira de Desenho de Pesquisa, mas acho que anda não tinha publicado aqui este powerpoint que apresentei na aula e que basicamente resume aquilo que irei estar a estudar ao longo deste ano.
A unidade curricular obrigatória - Dissertação em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação - irá correr todo o ano e conduzirá a uma dissertação que será orientada pelo professor Gustavo Cardoso. O meu objectivo é fazer uma dissertação sobre "o valor económico e social da informação no quadro da sociedade em rede" e o que pretendo basicamente é tentar perceber se a transição para a sociedade em rede afectou o valor (económico e social) da informação e como. Será uma dissertação que começa por ser teórica, mas recorrerá à recolha de dados de várias fontes (secundárias e ou primárias) para produzir conclusões.
O projecto de investigação está descrito detalhadamente no trabalho sujeito a avaliação na cadeira de Desenho de Pesquisa, mas acho que anda não tinha publicado aqui este powerpoint que apresentei na aula e que basicamente resume aquilo que irei estar a estudar ao longo deste ano.
Os meus colegas e amigos jornalistas não irão gostar dos resultados esperados desta investigação, mas, em rigor científico e bom senso profissional, estes são mesmo os resultados que eu espero obter. Lamento pelo jornalismo e pelos jornalistas, mas espero que possa contribuir para ainda ir a tempo de despertar algumas consciências!
Como acho que já tinha escrito aqui, esta investigação começou por ser motivada pela procura de um novo modelo de negócio para os media. Mas entretanto tornou-se algo mais do que isso. As transformações em curso nas sociedades modernas são muito mais massivas do que isso! A desconstrução do modelo de negócio e da função institucional dos media tradicionais é apenas uma das suas consequências colaterais. É possível que venham a ser encontradas novas formas de institucionalizar a distribuição de informação em sociedade e até é possível que os jornalistas venham a ter um papel social relevante nessa institucionalização, mas isso será já num contexto radicalmente diferente daquele em que vivemos e (alguns de nós) trabalhamos.
Daqui resultará uma dissertação que terá no máximo 40 páginas, com um grande formalismo de apresentação, que será defendida num acto público perante um júri, à boa maneira académica.
Para a cadeira opcional de metodologias escolhi Análise de Redes em Ciências Sociais. Uma das partes do projecto trata precisamente disto e pretende analisar as redes sociais online como veículo de distribuição de informação e, ainda mais do que isso, tentar perceber de que forma o valor da informação aumenta ou diminui com a multiplicação de ligações permitida pela sociedade em rede. No trabalho para esta unidade curricular tentarei fazer uma aproximação a esse estudo. Obviamente é possível fazer um inquérito às pessoas e recolher a sua opinião sobre o seu próprio comportamento online, mas eu gostaria de ir mais além e de usar ferramentas e indicadores quantitativos para chegar lá. É para isso que quero esta cadeira.
Para a cadeira opcional livre ainda fui à procura de uma cadeiras que se chamava Corpos Tecnológicos, estive temporariamente inscrito numa interessante cadeira de Vigilância, Controlo e Identificação (que acabou por não se realizar) mas só enquanto não tive a confirmação que me podia inscrever em Modelos de Negócio e Economia do Software de Código Aberto, do mestrado en Software de Código Aberto. Naturalmente, é uma área completamente deslocada das que tenho frequentado até aqui (os colegas vêm quase todos de engenharia informática!), mas daqui pretendo tirar pelo menos três coisas: primeiro, um melhor conhecimento teórico e práticos sobre a construção e avaliação de modelos de negócio, para depois poder usar na minha dissertação; depois, um melhor conhecimento dos modelos de negócio alternativos aos dos media tradicionais, muitos deles open source, de forma a poder comparar uns com outros. Esta é ate ao momento a cadeira onde ainda estou mais perplexo, mas confio que a coisa irá a bom porto.
Houve outras novidades ao longo deste meses, mas sobre essas falarei mais tarde noutros posts.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Liquid life » Liquid media » Liquid surveillance
Este conceito de David Lyon - "Liquid surveillance" - é muito interessante e está bem explicado nesta interessante palestra o no livro com o mesmo título. Para Lyons, a cultura de vigilância que se está criar hoje em dia propaga-se - como um líquido viscoso - a todas as facetas do quotidiano.
O que me chamou à atenção foi que a mesma ideia de uma propagação líquida é expressa por Mark Deuze a propósito dos novos media e das implicações que eles podem ter no trabalho dos jornalistas. Deuze fala de "liquid media" e de "liquid work" como a forma certa de interagir com eles do ponto de vista dos jornalistas (algo que - como e notório! - ainda muito poucos jornalistas perceberam). Obviamente ambos vão buscar o conceito ao filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, que fala de "liquid life" para a considerar um dos traços distintivos da modernidade.
Eu acho que aquilo a que eles chamam "liquid... all" é afinal uma manifestação da "pervasiveness" das novas tecnologias de informação e comunicação. O próprio conceito de "pervasiveness" não é fácil de traduzir e a aproximação de "ubiquidade" [se alguém conhecer alguma tradução melhor, sou todo ouvidos!] não lhe faz justiça, porque não inclui a ideia de que é algo que "se imiscui" naquilo que toca. "Ubíquo" é algo que está presente em todo o lado; "pervasive" é algo que se "cola", que se "imiscui", que se integra em tudo o que nos rodeia. Aquilo que é ubíquo tem limites definidos; aquilo que é pervasive não tem limites definidos.
Eu percebo porque é que a ideia de uma "liquid life", "liquid media" ou "liquid surveillance" ganhou tracção no estudo destas matérias. Por oposição a uma natureza física, a natureza líquida é mais flexível, propaga-se mais facilmente, recobre os objectos e os seres. Mas, desse ponto de vista, porque não a metáfora do gasoso? Não seria mais adequada? O que acontece - parece-me... - é que a ideia de uma realidade líquida permite ainda assim perceber os limites das coisas, permite "ver" onde elas começam e onde elas acabam (para além de "liquid" dar melhores títulos que "gaseous"...).
Mas a verdade é que é mesmo isso. A metáfora certa seria "gasoso" e não "líquido"! Desde o telégrafo que a informação se transmite pelo ar. É "airborne". Os seus limites não são visíveis e muitas vezes não são determináveis. E isso claro que assusta. Sobretudo a capacidade de análise dos académicos. Mas cruze-se a informação "gasosa" com o digital e portanto com a computação (computação quântica, já agora...) e teremos uma compreensão bastante aproximada de porque razão as tecnologias de informação e comunicação são "líquidas" e porque razão isso se reflecte na nossa vida social, no nosso trabalho, nos media, e também na vigilância. Porque não devemos esquecer - como muitas vezes fazemos - que informação é inteligência em estado de bit. Quando cruzamos informação com computação e a propagamos em estado fluído (líquido ou gasoso) ou em forma quântica, a "inteligência" recobre, naturalmente, todos as facetas da nossa vida individual e colectiva. Mas isso é outra discussão... to be continued.
Seja como for, os conceitos de Bauman, Deuze e Lyon estão no caminho certo e são profícuos em termos das pistas de investigação que deixam para quem nelas quiser pegar. O que é importante compreender é que, nos tempos que correm, os media, o trabalho nos media e a vigilância - entre outras coisas - não podem senão ser estudados na sua natureza fluída. Ou seja, não podem (bem, podem, mas é um desperdício) ser estudados nos quadros sujeito/objecto (ou mesmo agente/agenciado) tradicionais. É por isso que o conceito de "conteúdo" é tão descabido, assim como todos os conceitos derivados, como o de propriedade do conteúdo. O mundo fluido da informação digital impõe uma outra abordagem. O mesmo, penso eu, se aplica ao estudo da vigilância.
E esse é o outro ponto que gostaria de abordar: no video citado acima, David Lyon vai no caminho certo ao notar que os mecanismos e ferramentas de vigilância estão cada vez mais incorporados e incorporadas nos media que usamos e na forma como os usamos. E que muitas vezes a vigilância (intencional ou inadvertida) parte de nós e não de entidades externas. Mas - parece-me - não tira a consequência lógica que essa abordagem impõe: os estudos de vigilância precisam de abandonar o paradigma de que alguém escuta e alguém é escutado. A informação fluída .. flui. E nalgum ponto desse fluxo, ela pode interessar a alguém, solta ou agregada. Combinada ou descombinada. Essa fluidez põe em causa o papel de quem escuta e de quem é escutado como põe em causa também - como sugeri atrás - os papéis de agente e agenciado. Em todas as facetas da comunicação moderna e portanto também no estudo da vigilância. Como é que coloca em causa esses papéis (compreendo bem as consequências cientificas do que está dito!) não sei e penso que deve ser estudado. Precisamente!
Por isso é me parece que a parábola preferida (e tantas vezes repetida) dos estudiosos da vigilância - o "1984" de George Orwell - falha a percepção essencial do carácter líquido das novas formas de vigilância. E por isso é que, como já escrevi aqui antes, me parece que o modelo mais adequado para simbolizar o mundo em que vivemos seria o do "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley. As modernas tecnologias de informação e comunicação não estão ao serviço de uma ou mais entidades externas. Elas estão literalmente "agarradas" à vida quotidiana e é nesse contexto que devem ser estudadas. Em Orwell as tecnologias de informação e comunicação - que são tecnologias de dominação, como sempre foram - são uma ferramenta ao serviço de uns para vigiar outros. Sujeito e objecto são entidades separada. Um é agente o outro é agenciado. Em Huxley, pelo contrário, as tecnologias de informação estão integradas no tecido social e na vivência quotidiana dos indivíduos. E depois podem ou não ser apropriadas por entidades externas. Como são. Mas não nos devemos esquecer que também podem ser apropriadas pelos próprios indivíduos. Precisamente porque são fluídas Por isso é que, quando se dá o exemplo de Edward Snowden para demonstrar o perigo dessa apropriação no quadro da big data, o mesmo Snowden serve de exemplo de como os indivíduos podem exercer o mesmo poder usando precisamente as mesmas ferramentas. Como Manning também ilustra cabalmente.
Percebo muito bem as inquietudes que estão na base da maioria dos estudos de vigilância. Há matérias que devem ser estudadas porque a multiplicação das tecnologias de informação e comunicação levanta questões profundas e de resposta difícil. Mas - creio - não serve de nada estudá-las ou analisá-las num quadro estático. Isso só será útil se tiver em conta o carácter líquido das apropriações sociais das novas tecnologias de informação e comunicação.
O que me chamou à atenção foi que a mesma ideia de uma propagação líquida é expressa por Mark Deuze a propósito dos novos media e das implicações que eles podem ter no trabalho dos jornalistas. Deuze fala de "liquid media" e de "liquid work" como a forma certa de interagir com eles do ponto de vista dos jornalistas (algo que - como e notório! - ainda muito poucos jornalistas perceberam). Obviamente ambos vão buscar o conceito ao filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, que fala de "liquid life" para a considerar um dos traços distintivos da modernidade.
Eu acho que aquilo a que eles chamam "liquid... all" é afinal uma manifestação da "pervasiveness" das novas tecnologias de informação e comunicação. O próprio conceito de "pervasiveness" não é fácil de traduzir e a aproximação de "ubiquidade" [se alguém conhecer alguma tradução melhor, sou todo ouvidos!] não lhe faz justiça, porque não inclui a ideia de que é algo que "se imiscui" naquilo que toca. "Ubíquo" é algo que está presente em todo o lado; "pervasive" é algo que se "cola", que se "imiscui", que se integra em tudo o que nos rodeia. Aquilo que é ubíquo tem limites definidos; aquilo que é pervasive não tem limites definidos.
Eu percebo porque é que a ideia de uma "liquid life", "liquid media" ou "liquid surveillance" ganhou tracção no estudo destas matérias. Por oposição a uma natureza física, a natureza líquida é mais flexível, propaga-se mais facilmente, recobre os objectos e os seres. Mas, desse ponto de vista, porque não a metáfora do gasoso? Não seria mais adequada? O que acontece - parece-me... - é que a ideia de uma realidade líquida permite ainda assim perceber os limites das coisas, permite "ver" onde elas começam e onde elas acabam (para além de "liquid" dar melhores títulos que "gaseous"...).
Mas a verdade é que é mesmo isso. A metáfora certa seria "gasoso" e não "líquido"! Desde o telégrafo que a informação se transmite pelo ar. É "airborne". Os seus limites não são visíveis e muitas vezes não são determináveis. E isso claro que assusta. Sobretudo a capacidade de análise dos académicos. Mas cruze-se a informação "gasosa" com o digital e portanto com a computação (computação quântica, já agora...) e teremos uma compreensão bastante aproximada de porque razão as tecnologias de informação e comunicação são "líquidas" e porque razão isso se reflecte na nossa vida social, no nosso trabalho, nos media, e também na vigilância. Porque não devemos esquecer - como muitas vezes fazemos - que informação é inteligência em estado de bit. Quando cruzamos informação com computação e a propagamos em estado fluído (líquido ou gasoso) ou em forma quântica, a "inteligência" recobre, naturalmente, todos as facetas da nossa vida individual e colectiva. Mas isso é outra discussão... to be continued.
Seja como for, os conceitos de Bauman, Deuze e Lyon estão no caminho certo e são profícuos em termos das pistas de investigação que deixam para quem nelas quiser pegar. O que é importante compreender é que, nos tempos que correm, os media, o trabalho nos media e a vigilância - entre outras coisas - não podem senão ser estudados na sua natureza fluída. Ou seja, não podem (bem, podem, mas é um desperdício) ser estudados nos quadros sujeito/objecto (ou mesmo agente/agenciado) tradicionais. É por isso que o conceito de "conteúdo" é tão descabido, assim como todos os conceitos derivados, como o de propriedade do conteúdo. O mundo fluido da informação digital impõe uma outra abordagem. O mesmo, penso eu, se aplica ao estudo da vigilância.
E esse é o outro ponto que gostaria de abordar: no video citado acima, David Lyon vai no caminho certo ao notar que os mecanismos e ferramentas de vigilância estão cada vez mais incorporados e incorporadas nos media que usamos e na forma como os usamos. E que muitas vezes a vigilância (intencional ou inadvertida) parte de nós e não de entidades externas. Mas - parece-me - não tira a consequência lógica que essa abordagem impõe: os estudos de vigilância precisam de abandonar o paradigma de que alguém escuta e alguém é escutado. A informação fluída .. flui. E nalgum ponto desse fluxo, ela pode interessar a alguém, solta ou agregada. Combinada ou descombinada. Essa fluidez põe em causa o papel de quem escuta e de quem é escutado como põe em causa também - como sugeri atrás - os papéis de agente e agenciado. Em todas as facetas da comunicação moderna e portanto também no estudo da vigilância. Como é que coloca em causa esses papéis (compreendo bem as consequências cientificas do que está dito!) não sei e penso que deve ser estudado. Precisamente!
Por isso é me parece que a parábola preferida (e tantas vezes repetida) dos estudiosos da vigilância - o "1984" de George Orwell - falha a percepção essencial do carácter líquido das novas formas de vigilância. E por isso é que, como já escrevi aqui antes, me parece que o modelo mais adequado para simbolizar o mundo em que vivemos seria o do "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley. As modernas tecnologias de informação e comunicação não estão ao serviço de uma ou mais entidades externas. Elas estão literalmente "agarradas" à vida quotidiana e é nesse contexto que devem ser estudadas. Em Orwell as tecnologias de informação e comunicação - que são tecnologias de dominação, como sempre foram - são uma ferramenta ao serviço de uns para vigiar outros. Sujeito e objecto são entidades separada. Um é agente o outro é agenciado. Em Huxley, pelo contrário, as tecnologias de informação estão integradas no tecido social e na vivência quotidiana dos indivíduos. E depois podem ou não ser apropriadas por entidades externas. Como são. Mas não nos devemos esquecer que também podem ser apropriadas pelos próprios indivíduos. Precisamente porque são fluídas Por isso é que, quando se dá o exemplo de Edward Snowden para demonstrar o perigo dessa apropriação no quadro da big data, o mesmo Snowden serve de exemplo de como os indivíduos podem exercer o mesmo poder usando precisamente as mesmas ferramentas. Como Manning também ilustra cabalmente.
Percebo muito bem as inquietudes que estão na base da maioria dos estudos de vigilância. Há matérias que devem ser estudadas porque a multiplicação das tecnologias de informação e comunicação levanta questões profundas e de resposta difícil. Mas - creio - não serve de nada estudá-las ou analisá-las num quadro estático. Isso só será útil se tiver em conta o carácter líquido das apropriações sociais das novas tecnologias de informação e comunicação.
terça-feira, 16 de julho de 2013
O capital social na era das redes sociais online
Confesso que não conhecia em profundidade o conceito de capital social, o que obviamente era uma lacuna importante uma vez que se trata de um conceito central em sociologia. Conhecia o seu sentido superficialmente, mas agora fiquei a conhecer muito melhor todas as suas vertentes (e até as suas várias acepções). E, como é óbvio, há mudanças importantes no tipo de relacionamento social que se estabelece entre os indivíduos que têm impacto sobre a formação de capital social. Impactos qualitativos e quantitativos.
Este é um tema difícil e a impressão que me ficou foi que ainda há muito por estudar. Mas há duas ideias que gostaria de destacar. Primeiro, a participação nas redes sociais online está longe, muito longe de ser uma futilidade. Obviamente, estas são redes diferentes das redes tradicionais. Mas não são menos importantes ou - aquilo que realmente me interessa neste estudo - menos valiosas para os indivíduos. Isso torna-se evidente quando as analisamos usando um prisma diferente daquele a que recorremos para analisar as redes tradicionais. Um "amigo" do Facebook é diferente de um primo ou um irmão. Mas não é necessariamente menos importante do ponto de vista social. E pode ser tão ou mais valioso do ponto de vista social. Uma das razões é porque há aqui dois elementos das redes sociais online que são determinantes em introduzir a diferença: a quantidade incomparavelmente mais abundante de ligações mediadas e o facto de poderem transpor as contingência de espaço e tempo. Portanto, desse ponto de vista, a investigação feita para este trabalho foi frutuosa e serviu os objectivos que tinha inicialmente para ele (em termos de análise do valor social da informação)
Mas há outra ideia que eu também queria destacar e que neste trabalho acabei por apenas aflorar superficialmente: a multiplicação de relações sociais e a transversalidade espacio-temporal das mesmas coloca os indivíduos perante novos tipos de filiações sociais que transcendem as limitações geográficas, nacionais, etárias, familares ou outras. Ou seja, toda aquela sorte de critérios que costumavam sedimentar (e ainda sedimentam) as relações sociais não mediadas. E o que parece - sinceramente - é que é isso mesmo que explica as convulsões sociais que temos vindo a presenciar um pouco por toda a parte (e para as quais se procuram futilmente "razões próximas"). Parece haver aqui um desconforto, um desajustamento, entre a realidade "real" dos indivíduos e a realidade "virtual" das suas relações sociais online. Eu lembro-me de ter achado - com Baudrillard, por exemplo - que havia um desfasamento traumático de base entre aquilo que a sociedade de consumo nos impunha como aspiração social e aquilo que a realidade económica nos permitia. Sempre achei que esse trauma seria o "combustível" de alguma coisa. Pois bem, hoje em dia, o desfasamento traumático entre as limitações da nossa realidade "real" e as potencialidade da nossa realidade "virtual" é ainda maior. Está por provar que seja isso - ou algo parecido com isso - que está na base das convulsões sociais em que vivemos. Mas essa hipótese deve ser estudada (o que, por si só, repare-se, "obriga" a pôr de lado, desde logo, todas as referidas "razões próximas").
No fundo, o que isto significa é que há aqui movimentos tectónicos profundos das formas de sociabilidade dos indivíduos e do tipo de relações sociais que se estabelecem entre eles. Essas mutações profundas têm provavelmente múltiplos efeitos, sendo que um deles pode bem ser a construção de sociedades (ou sociedade) mais justas, mais fraternas e mais solidárias. Isto, obviamente, está para lá do âmbito restrito do trabalho que pretendo fazer neste mestrado, mas, bem vistas as coisas, pode também ser um elemento a ter em conta numa análise do valor social da informação. Não para os indivíduos, mas para a sociedade como um todo. Ou seja, o conceito de capital social é instrumental, mas podemos igualmente analisar as potencialidades comunicativas da sociedade em rede como um elemento de crescimento e amadurecimento das sociedades humanas. O que nos leva em direcção a teorizações como a da "civilização empática" de Rifkin ou a ficções como o "Admirável Mundo Novo" de Huxley.
O trabalho apresentado à cadeira de Redes Sociais Online - que não contém estas reflexões mas suscitou-as - pode ser lido ou descarregado na minha área do academia.edu ou aqui:
segunda-feira, 15 de julho de 2013
A (des)regulação da internet
Para a única cadeira opcional do 1º ano de mestrado escolhi a unidade curricular "Política e Regulação dos Média". A ideia - mais uma vez - era fazer uma espécie de "antes-e-depois" para perceber o que mudou na comunicação com o surgimento da internet. Neste caso, o que mudou em termos de regulação da função social da comunicação. O que me interessava não era tanto (ou não era apenas) a regulação formal, mas também a regulação informal da comunicação. Por exemplo, a crença de que deve haver um serviço público de televisão ou a exigência que a conduta dos jornalistas deva ser sujeita a um código deontológico que, entre outras coisas, se destina a proteger a sua objectividade são duas formas de regulamentação formal que cada sociedade implementa ao seu jeito. Mas elas simultaneamente alimentam e alimentam-se de uma ideia geral sobre os mecanismos pelos quais se deve reger a distribuição social de informação que tem algo de informal e que se encontra interiorizada em cada um de nós. Quando falamos de "televisão" ou quando falamos de "jornalismo" formamos uma ideia do que estamos a falar que é ela própria uma instituição social. Ou seja, os conceitos de "televisão" e "jornalismo", por exemplo, são tanto instituições sociais como o são a Lei da Televisão ou o Código Deontológico dos Jornalistas (entre outros "códigos" atinentes). Aliás, estes são emanações daqueles. Tanto as instituições formais - as leis e as entidades reguladores - como as instituições informais - a ideia social subjacente - são formas de institucionalizar socialmente a distribuição de informação. São modos de organizar os recursos sociais para produzirem um fim, que é assegurar a distribuição social da informação.
Neste trabalho, o que me preocupava não eram as instituições formais - as leis ou as entidades reguladoras - mas sim a forma de institucionalizar socialmente a distribuição de informação. Porque falhamos o essencial se, ao seguirmos a desregulação introduzida pela internet, olharmos para as instituições formais - as leis - e não para as instituições informais - os modos de organizar socialmente a distribuição de informação: através de televisões privadas ou publicas (ou ambas); com respeito estrito pela objectividade ou sem ele; etc.
Por isso o que fiz foi tentar identificar os valores sociais subjacentes à regulação tradicional, enumerar as transformações colocadas em cena pelas comunicação digital e depois ver de que modo é que esses valores podiam ou não ser regulados na nova realidade comunicativa.
O resultado desiludiu-me um pouco. Primeiro porque o problema se revelou mais complexo do que eu antecipava e, segundo, porque tive muito menos tempo para fazer este trabalho do que gostaria de ter tido. Serviu pelo menos para concluir que provavelmente não chega alargar o âmbito da regulação para instituições formais de âmbito transnacional (como tem sido regra). Essas formas de regulação em geral não funcionam (demoram tempo e têm uma aplicabilidade reduzida) nem podem funcionar (o problema é de outra natureza). De certa forma, as tentativas de regulação deste sector - sejam nacionais ou transnacionais - têm usado as mesmas ferramentas e instrumentos que eram usados para regular os mass media perante uma comunicação social cuja transformação é radical na passagem do analógico para o digital. Esse é um erro básico de perspectiva que não espanta nos reguladores porque na realidade está também dentro das nossas cabeças: quando discutimos se um blogue pode ser considerado jornalismo ou se é ou não correcto copiar um ficheiro MP3 estamos a aplicar à realidade "líquida" da era digital as categorias de análise (e portanto também de regulação) "sólidas" da era analógica.
domingo, 14 de julho de 2013
Porquê estudar o valor da informação?
Na cadeira de Desenho de Pesquisa, é-nos pedido que desenhemos o plano de pesquisa para a investigação que queremos fazer neste mestrado e que deverá culminar na dissertação de mestrado. Para mim isto foi relativamente simples, uma vez que aquilo que pretendo investigar já está (já estava) bastante bem definido dentro da minha cabeça e também porque, salvo uma ou duas excepções, tenho conseguido "ligar" o trabalho feito em cada uma das cadeiras com o objectivo final da investigação que pretendo fazer no mestrado.
Esta investigação prende-se o valor social e económico da informação e o trabalho abaixo explica detalhadamente o porquê da escolha deste tema, os métodos que serão seguidos e as hipóteses de estudo. Mas eu queria destacar aqui um uma ou duas ideias principais e apontar para as conclusões esperadas.
Eu sempre achei que os meios de comunicação social tinham um peso decisivo na vivência social e na construção da cidadania. Em parte foi por isso que escolhi estudar e trabalhar em jornalismo. Aliás, já repeti mais do que uma vez que, na época, jornalista, médico e juiz eram aqueles 3 papéis que para mim eram mais do que meras profissões; eram missões!.
Por outro lado, desde cedo percebi também que o surgimento da internet alterava profundamente o papel e a relevância social dos meios de comunicação. A princípio parecia-me que isso tinha a ver com o seu modelo de negócio e que, uma vez encontrado um novo modelo de negócio, o equilíbrio seria reestabelecido, provavelmente com outros actores, mas proporcionando o mesmo resultado: assegurar a distribuição social de informação. Esta é aliás, provavelmente, a tese dominante actualmente.
Mas, ultimamente, tenho olhado cada vez mais para a distribuição social de informação pelo prisma analítico das suas instituições. Ou seja, aquilo a que nós chamamos mass media - os jornais, as revistas, as televisões - são formas institucionais de distribuir informação socialmente relevante. E aliás, são formas institucionais grandemente regulamentadas (de diversas formas) e profundamente "historicizadas". O que está a acontecer actualmente - parece-me - é uma construção social de novas instituições para fazer a mesma coisa, sendo que este processo está apenas no princípio. Obviamente, essa construção far-se-á com avanços e recuos, com viragens à direita ou à esquerda, consoante as forças sociais e económicas em colisão. Mas far-se-á inevitavelmente. Este trabalho é sobre isso. Mas, por isso mesmo, não pretendo que se restrinja ao modelo de negócio dos mass media (embora isso já fosse tarefa importante!). O que quero é compreender as formas sociais que escolhemos para distribuir informação e de que forma e que elas mudaram na transição para a sociedade em rede alimentada por tecnologias digitais. Ou seja, é um tema vasto - com duas vertentes bem claras, a económica e a social - mas que pode ser circunscrito às hipóteses e aos métodos de pesquisa descritos neste trabalho.
Queria também falar das conclusões esperadas. Basicamente porque quando estava a projectar a pesquisa, elas assustaram-me um pouco. Mas - sinceramente - são aquelas que penso que esta investigação irá produzir:
Esta investigação prende-se o valor social e económico da informação e o trabalho abaixo explica detalhadamente o porquê da escolha deste tema, os métodos que serão seguidos e as hipóteses de estudo. Mas eu queria destacar aqui um uma ou duas ideias principais e apontar para as conclusões esperadas.
Eu sempre achei que os meios de comunicação social tinham um peso decisivo na vivência social e na construção da cidadania. Em parte foi por isso que escolhi estudar e trabalhar em jornalismo. Aliás, já repeti mais do que uma vez que, na época, jornalista, médico e juiz eram aqueles 3 papéis que para mim eram mais do que meras profissões; eram missões!.
Por outro lado, desde cedo percebi também que o surgimento da internet alterava profundamente o papel e a relevância social dos meios de comunicação. A princípio parecia-me que isso tinha a ver com o seu modelo de negócio e que, uma vez encontrado um novo modelo de negócio, o equilíbrio seria reestabelecido, provavelmente com outros actores, mas proporcionando o mesmo resultado: assegurar a distribuição social de informação. Esta é aliás, provavelmente, a tese dominante actualmente.
Mas, ultimamente, tenho olhado cada vez mais para a distribuição social de informação pelo prisma analítico das suas instituições. Ou seja, aquilo a que nós chamamos mass media - os jornais, as revistas, as televisões - são formas institucionais de distribuir informação socialmente relevante. E aliás, são formas institucionais grandemente regulamentadas (de diversas formas) e profundamente "historicizadas". O que está a acontecer actualmente - parece-me - é uma construção social de novas instituições para fazer a mesma coisa, sendo que este processo está apenas no princípio. Obviamente, essa construção far-se-á com avanços e recuos, com viragens à direita ou à esquerda, consoante as forças sociais e económicas em colisão. Mas far-se-á inevitavelmente. Este trabalho é sobre isso. Mas, por isso mesmo, não pretendo que se restrinja ao modelo de negócio dos mass media (embora isso já fosse tarefa importante!). O que quero é compreender as formas sociais que escolhemos para distribuir informação e de que forma e que elas mudaram na transição para a sociedade em rede alimentada por tecnologias digitais. Ou seja, é um tema vasto - com duas vertentes bem claras, a económica e a social - mas que pode ser circunscrito às hipóteses e aos métodos de pesquisa descritos neste trabalho.
Queria também falar das conclusões esperadas. Basicamente porque quando estava a projectar a pesquisa, elas assustaram-me um pouco. Mas - sinceramente - são aquelas que penso que esta investigação irá produzir:
- O modelo de negócio dos mass media está esgotado e não pode ser recuperado no quadro da sociedade em rede
- O modelo de negócio dos novos media da sociedade em rede depende de uma escala global e só existe em função dela (o que explica a tendência para um só operador por sector)
- Contribuir para uma investigação mais abrangente sobre formas alternativas de atribuir valor à informação no quadro da sociedade em rede, considerando que o modelo actual está esgotado e é preciso encontrar um modelo alternativo que garanta as funções sociais de distribuição de informação dentro de parâmetros de racionalidade económica e relevância e adequação social.
Este último é obviamente o resultado mais importante que esta investigação pode produzir, mas é também o mais ambicioso e difícil. Por isso é que está projectado apenas como um contributo. Não espero com o trabalho desenvolvido neste mestrado responder a essa questão - formas alternativas (e sustentáveis) de garantir a distribuição social de informação na sociedade em rede - mas espero, com a investigação sobre o papel dos mass media vs. new media, poder contribuir para esse objectivo.
O trabalho que descreve em pormenor o meu projecto de pesquisa pode ser lido na íntegra na minha área do academia.edu ou aqui:
A geração digital
Para a cadeira de Literacia dos Novos Média tinha desde o início projectado analisar comparativamente as literacias exibidas pelos nativos digitais face àqueles que foram "nascidos e criados" no mundo dos mass media. Muitas vezes brincamos com isso no nosso dia-a-dia, comentando a forma a aparentemente simples como as crianças apreendem a forma de funcionamento dos novos media por comparação com a dificuldade que os mais velhos demonstram para o fazer. Isso voltou a ser moda nos videos virais a propósito do surgimento dos tablet e do carácter aparentemente intuitivo com que as crianças os usam. Houve vários videos muito populares sobre isso.
Obviamente, conhecia relativamente bem as teses de Don Tapscott e também, embora mais superficialmente, as de Nicholas Negroponte. E estes dois autores serviram de base ao trabalho para esta cadeira. Mas, por uma contingência cronológica, fiz este trabalho depois de fazer o de Questões Contemporâneas de Comunicação e Cultura, sobre a migração do analógico para o digital. E, por isso, em vez de tentar comparar as literacias de uns e outros dos protagonistas identificados acima, optei por tentar perceber de que forma é que as mutações resultantes da migração do analógico para o digital tinham nas literacias exibidas pelo nativos digitais. Dito de outro modo, tentei combinar a comparação referida com uma tentativa de a explicar como uma forma de apropriar tecnologias que são fundamental e essencialmente diferentes. Ou seja, o que me interessava era menos os estudos empíricos sobre a forma de apropriar esta ou aquela tecnologia e mais a forma de incorporar na comunicação e na relação social as mutações de base resultantes da mudança do analógico para o digital.
Este foi provavelmente o trabalho realizado até agora em que mais fiquei com a noção que havia muito mais para ler, para analisar e para escrever. Estive apenas a esgravatar a superfície de um tema que por si só dava uma tese de doutoramento. Mas que para mim era apenas um input parcial para outro tema diferente. Talvez tenha sido por isso que este trabalho foi dos que me correu pior. Deu-me menos gosto a fazer que os outros e o resultado penso que transparece isso. Ainda assim, ele aqui está. O resumo diz o seguinte:
"Na sociedade em rede conectada por comunicação mediada por computador, a produção, distribuição e consumo de informação e de bens culturais é cada vez mais dominantemente feita no formato digital. E esse facto altera não só os conteúdos informativos e culturais, mas também a forma de os apreender e incorporar no quotidiano social dos indivíduos. Neste trabalho partimos de uma análise às características mais marcantes e distintivas do formato digital de codificação face ao formato analógico para encontrar uma correspondência com o tipo de novas literacias evidenciadas pelos nativos digitais e desse modo estabelecer uma dicotomia entre esta geração e as anteriores. A hipótese subjacente a este trabalho é que os novos formatos digitais de produção, distribuição e consumo de informação, conhecimento e cultura na sociedade em rede são apropriados socialmente pelos indivíduos mediante novas literacias de media. Começaremos por analisar quais são as características distintivas dos novos media digitais, depois analisaremos quais as literacias evidenciadas pela actual geração de nativos digitais face à geração anterior a partir de estudos e análises já publicadas e, por fim, concluiremos analisando de que forma essas literacias são úteis nos outros campos de desenvolvimento da sociedade em rede."O artigo completo está na minha página do academia.edu ou aqui:
quarta-feira, 3 de julho de 2013
O paradigma digital
A cadeira de Questões Contemporâneas de Comunicação e Cultura é a única do primeiro ano de mestrado que é anual e não semestral. E é sempre leccionada por três professores externos convidados para o efeito. Este ano leccionaram a cadeira, por este ordem, Eduardo Cintra Torres, da Universidade Católica, Fausto Colombo, da Universidade Católica de Milão, e Nico Carpentier, da Universidade Livre de Bruxelas. A nós competia-nos escolher um dos temas abordados e trabalhar sobre ele. Eu gostei das aulas dos três professores, mas escolhi como tema uma das áreas tratadas - mas não aprofundada - pelo professor Fausto Colombo: a passagem do analógico para o digital.
Eu sempre intui que isso tinha alguma importância, mas estava longe de imaginar que teria o papel tão decisivo que percebi ter depois de estudar o tema. Esta é que é verdadeiramente a mudança de paradigma que afecta todos outros campos de análise que possamos escolher para abordar as transformações em curso não só na área da comunicação, como no funcionamento geral das sociedades actuais. Penso que precisamos de perceber isso para podermos compreender o que está a passar-se na forma de distribuir socialmente a informação e sobretudo para escaparmos à tentação de olhar o que é novo à luz de instituições e categorias de análise que são velhas. Este é um erro muito frequente.
Quando escrevi os meus papers do primeiro semestre não tinha ainda tomado consciência da magnitude que representa esta mudança do analógico para o digital, porque senão ela teria sido mais central nesses primeiros trabalhos. Nem este paper o esgota. Por exemplo, não há neste trabalho nada sobre o estudo da Antropologia num mundo que deixa de ser analógico e passa a ser digital. Será que a Antropologia já meditou sobre isso? Que efeitos tem a codificação digital sobre a nossa memória colectiva? Não é óbvio que isso não pode deixar de ter efeitos transformadores massivos e profundos sobre as sociedades humanas em todas as suas vertentes?
Outra coisa que resultou para mim muito positiva deste trabalho foi ter percebido melhor como enquadrar a transformação tecnológica no quadro do livre-arbítrio dos indivíduos em sociedade e das suas escolhas colectivas. Percebi que a tecnologia não determina, dirige. Ela não impõe caminhos; ela abre caminhos possíveis. Ela constitui um substrato sobre o qual se constroem as organizações económicas e sociais humanas, assim como as escolhas pessoais dos indivíduos. As tecnologias particulares com que hoje nos confrontamos - os smartphones, os ecrãs tácteis, o wi-fi, etc - são elas próprias pequenas erupções que nascem sobre o magma transformador da transição do analógico para o digital. Esse é que é o factor decisivo para o qual devemos olhar se quisermos perceber as transformações em curso na área da comunicação.
Este transformou-se se por isso num dos três trabalhos mais importnates que já fiz até hoje neste mestrado (o de Dinâmicas Sociais da Internet é outro) e por isso será um dos pilares da minha dissertação final. O que significa que provavelmente voltará a ser citado por aqui.
O resumo do artigo diz o seguinte:
Eu sempre intui que isso tinha alguma importância, mas estava longe de imaginar que teria o papel tão decisivo que percebi ter depois de estudar o tema. Esta é que é verdadeiramente a mudança de paradigma que afecta todos outros campos de análise que possamos escolher para abordar as transformações em curso não só na área da comunicação, como no funcionamento geral das sociedades actuais. Penso que precisamos de perceber isso para podermos compreender o que está a passar-se na forma de distribuir socialmente a informação e sobretudo para escaparmos à tentação de olhar o que é novo à luz de instituições e categorias de análise que são velhas. Este é um erro muito frequente.
Quando escrevi os meus papers do primeiro semestre não tinha ainda tomado consciência da magnitude que representa esta mudança do analógico para o digital, porque senão ela teria sido mais central nesses primeiros trabalhos. Nem este paper o esgota. Por exemplo, não há neste trabalho nada sobre o estudo da Antropologia num mundo que deixa de ser analógico e passa a ser digital. Será que a Antropologia já meditou sobre isso? Que efeitos tem a codificação digital sobre a nossa memória colectiva? Não é óbvio que isso não pode deixar de ter efeitos transformadores massivos e profundos sobre as sociedades humanas em todas as suas vertentes?
Outra coisa que resultou para mim muito positiva deste trabalho foi ter percebido melhor como enquadrar a transformação tecnológica no quadro do livre-arbítrio dos indivíduos em sociedade e das suas escolhas colectivas. Percebi que a tecnologia não determina, dirige. Ela não impõe caminhos; ela abre caminhos possíveis. Ela constitui um substrato sobre o qual se constroem as organizações económicas e sociais humanas, assim como as escolhas pessoais dos indivíduos. As tecnologias particulares com que hoje nos confrontamos - os smartphones, os ecrãs tácteis, o wi-fi, etc - são elas próprias pequenas erupções que nascem sobre o magma transformador da transição do analógico para o digital. Esse é que é o factor decisivo para o qual devemos olhar se quisermos perceber as transformações em curso na área da comunicação.
Este transformou-se se por isso num dos três trabalhos mais importnates que já fiz até hoje neste mestrado (o de Dinâmicas Sociais da Internet é outro) e por isso será um dos pilares da minha dissertação final. O que significa que provavelmente voltará a ser citado por aqui.
O resumo do artigo diz o seguinte:
"A emergência da Sociedade em Rede introduziu mudanças significativas na forma como os agentes sociais produzem, distribuem e consomem informação, conhecimento e cultura. Uma dessas mudanças corresponde à alteração fundamental do sistema de codificação da informação, que passou de predominantemente analógico antes da Sociedade em Rede para sobretudo digital depois dela. Neste trabalho argumentaremos que a passagem da codificação analógica para a digital constitui o substrato tecnológico sobre o qual se organizam as apropriações sociais das tecnologias de informação e comunicação. Começaremos por analisar as características da codificação digital por oposição à codificação analógica, em seguida analisaremos de que forma a codificação digital condiciona o modo de produzir, distribuir e consumir informação e concluiremos avaliando como é que isso altera as condições sociais em que essa produção, distribuição e consumo acontecem."O artigo completo pode ser lido e descarregado na minha área do academia.edu ou aqui:
sábado, 20 de abril de 2013
"1984" ou "Admirável Mundo Novo"?
Desde que estou a estudar neste mestrado já ouvi falar dezenas de vezes do "1984" de George Orwell. Obviamente a magnitude das transformações em curso, nas nossas formas de comunicar e nas nossas formas de nos relacionarmos socialmente, induz visões utópicas ou distópicas da realidade.
Mas não é isso que me ocupa agora. Esta questão voltou a ocupar-me esta semana à medida que via, à distância e sem o acompanhamento que merece, a forma como as redes sociais e o "user generated-content" foi usado na investigação (e captura) dos suspeitos do antentado de Boston. Isso fez-me lembrar aquela notável frase acima (que li pela primeira vez num trabalho de primeiro semestre de um colega sobre as questões da vigilância), uma desconstrução de Mark Miller sobre a célebre frase de George Orwell (provavelmente uma das frases mais famosas do Mundo): "Big Brother is watching you!".
Como a investigação de Boston demonstra à evidência, o verdadeiro potencial de vigilância não é externo à sociedade; é interno a ela. Não será imposto de fora para dentro; será imposto de dentro para fora! O "Big Brother", realmente, se alguma vez existir (porque às vezes esquecemo-nos que as distopias são tão credíveis como as utopias...), será o conjunto dos cidadãos a controlarem o conjunto dos cidadãos.
Por isso é que eu acho que, se as pessoas que estudam comunicação e sociedade quiserem realmente servir-se de uma distopia, a escolha certa não é o "1984" do George Orwell; é o "Admirável Mundo Novo" do Aldous Huxley (aliás, se quiserem ver o Gattaca, também poderão tirar alguns "ensinamentos" interessantes). A vantagem do "Admirável Mundo Novo" sobre o "1984" é que o segundo é feito de fora para dentro, um escritor olha para a sociedade e recobre-a com a sua visão distópica da sua evolução; enquanto o primeiro é feito de dentro para fora, a distopia é enredada no próprio tecido da sociedade. Talvez seja uma heresia literária, mas o que me parece é que "1984" é um objecto literário enquanto o "Admirável Mundo Novo" é um objecto científico. Onde num existe literatura, no outro existe ciência. Por isso é que o segundo seria uma melhor distopia para invocar num mestrado de comunicação e sociedade.
Aliás, só ao pesquisar para este post é que percebi que Neil Postman, um investigador que já citei por várias vezes no primeiro semestre, já se tinha apercebido há muito desta fundamental diferença entre Huxley e Orwell (ou, mais correctamente, entre o "1984" e o "Admirável Mundo Novo"). Diz ele, em "Amusing Ourselves to Death"
What Orwell feared were those who would ban books. What Huxley feared was that there would be no reason to ban a book, for there would be no one who wanted to read one. Orwell feared those who would deprive us of information. Huxley feared those who would give us so much that we would be reduced to passivity and egotism. Orwell feared that the truth would be concealed from us. Huxley feared the truth would be drowned in a sea of irrelevance. Orwell feared we would become a captive culture. Huxley feared we would become a trivial culture, preoccupied with some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy. As Huxley remarked in Brave New World Revisited, the civil libertarians and rationalists who are ever on the alert to oppose tyranny "failed to take into account man's almost infinite appetite for distractions." In 1984, Orwell added, people are controlled by inflicting pain. In Brave New World, they are controlled by inflicting pleasure. In short, Orwell feared that what we fear will ruin us. Huxley feared that our desire will ruin us.Obviamente, a ideia de pôr os cidadãos (e os seus telemóveis, as suas câmaras, a suas fotografias) à procura de um criminoso, qualquer que ele seja, é muito assustadora. E este caso de Boston merece um estudo profundo (que, não tenho dúvidas, alguém do MIT estará a preparar!) nesse aspecto, pois pode ser um case-study com alguns elementos inéditos.
Mas aquilo se inscreve na sociedade será sempre mais importante do que aquilo que se inscreve sobre ela. É essa a lição que Huxley nos dá e é por isso que as suas "previsões" podem ser muito mais úteis em termos científicos do que as do "1984" de Orwell. Se querem uma distopia (???), escolham esta!
quarta-feira, 27 de março de 2013
Present Shock!
O conceito de timeless time que Castells associa à comunicação na era da sociedade em rede é levado ao extremo por Douglas Rushkoff neste livro recente: "Present Shock - When Everything Happens Now".
Para já é um trocadilho interessante - e assumido (explicado num dos videos abaixo) com o "Future Shock" do Alvin Toffler. Mas, sobretudo, leva o conceito de timeless time muito mais além e questiona muitos outros parâmteros da civilização a partir da era digital.
Obviamente, Douglas Rushkoff não é um cientista nem isto é ciência. Mas, quem tiver paciência para acompanhar os videos, pode encontrar muitas ideias de investigação bem interessantes.
Para mim, o tema do shift analógico/digital é central como tema de estudo, pelas consequências que parece ter não só na maneira como transmitimos informação (em sentido lato) como também na maneira como nos apropriamos dela, a arquivamos, a reutilizamos, etc. Nessa medida, as teses de Rushkoff são interessantes e desafiadoras. Ainda não consegui encontrar este livro em formato digital, mas estou a ansioso por lhe "deitar a mão". Não tarda nada vem pela Amazon em formato "sumo de árvore"!
Eis um video onde Douglas Rushkoff explica o que é o "Presente Shock". É um video longo, mas está carregado de ideias interessantes a todos os níveis. Além disso, o homem é tão frenético que chega a ser hilariante! Faz lembrar o Woody Allen. Quem preferir um video mais pequeno tem este, que também é recente, numa conferência da O'Reilly - http://youtu.be/cdawqlu0_JU - seguido de uma conversa com Eva Williams, um dos fundadores do Twitter - http://youtu.be/_MPXe4JwfAc
Por outro lado, uma fenómeno interessante - porque de certa forma incongruente - de que temos falado nas aulas de mestrado é o dos "drop-outs", as pessoas que embora reunindo os meios e as literacias para os usarem, abandonam voluntariamente a internet e/ou as redes sociais.
As teses de Rushkoff também são obviamente interessantes nessa perspectiva, porque sublinham o potencial de ansiedade que o o timeless time da era digital pode insinuar em quem não for capaz de prescindir de uma grau mínimo de controle. Nessa media, é interessante acompanhar esta conversa entre Rushkoff e Paul Miller, o jornalista do The Verge que há quase um ano decidiu "sair da internet" e voltar para contar a história.
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